palimpsesto

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Lamúrias

13/07/2009

DIVA DOS MEUS SONHOS

Oh musa britadeira que trouxeste
ruídos decantados da cidade,
empresta-me um som bruto e ligeiro,
tipo turbina dum 347.

Invadas no chão o pavio da cidade,
como um velho explodindo os campos,
mas me acuda dessa chuva celeste
de revolveres, fuzis e morteiros

Britadeira! Levantas minha noite,
antes da luz devorar meus cavalos
e ruminar os bois do meu tempo;
acorda no meu braço o infarto
pra ressentir aquilo que não lembro,
pra não morrer a voz do braço esquerdo!

26/01/2009

Reforma (por Uiliam Ferreira Boff)

Por medidas mórbidas,
procuro morfemas simples,
verbalizações concretas como caneta e papel;
não me asseguro mais das formas que vem do além.

Para tanto, sossego;
dou-me tempo
(ele me doa pensamentos)

mas a regra me doa um só,
para agir um só:
semcontarcomcantosdistintos,gravurasdiversasdepensarmundos...

Perdi meus encantos bilíngues (um grifo vermelho me lembra)
na expressão prosaica da regra
que insiste sobre o que vive na virtualidade;

resolvido: parei!
a vida para (pára?!), ou melhor:
resolveram por mim os juízes mortos
das escrivaninhas e academias neo-nadísticas;

(nem o computador me salva!?...)

cá pra mim,
reformar-me-ia-se-formasse-trema-hifenizante!!!

08/01/2009

Ilha Café Blog do Coletivo Literário Cardamomo.

Trechos de sujeitos:


A NÃO-PALAVRA (por Fabrício Fortes)
A fala que mora
no meio das tuas palavras
não se pode pôr no papel.

...


BOCA MALDITA (por Daniel Retamoso Palma)
A boca mal dita a sombra
do que sabe de si
o corpo

...


TECIDO DO ABANDONO (por Odemir Tex Jr.)
Este é o tecido que cobre
Todos os móveis do abandono

...


SETE SUICIDAS (por Uiliam Ferreira Boff)
que importa saber dos dez lírios que plantei e você não colheu
meu amor será sempre essa rosa medonha e parca
que estoura quando ninguém mais tem mãos, braços e olhos
não me planto mais, não me rego, nunca me importei com o tempo....

...

mais goles: http://ilhacafe.blogspot.com/

07/01/2009

Bilhete - texto de Bruna Mitrano, do blog de lírio lilas

Ei!, sabe o que lembrei agora? D’aquela folha amarela (pisoteada) que vimos bem na faixa de pedestres num sinal em Copacabana. Você podia jurar que eu escreveria algo sobre a folha que, sem nenhuma dúvida, só nós dois vimos. Não escrevi. Você fez questão de demonstrar decepção. Porque não escrevi. Aí eu disse que a gente não escreve sobre o que quer, nem quando, nem onde; uma meia verdade que me pareceu inteira no momento em que eu falava quase sem pensar a respeito. Não escrevi.
Escrevo então p’ra dizer que não, não pretendo escrever sobre a folha amarela, nossa folha amarela, de amendoeira, se não me engano. Por que então? P’ra dizer que ainda a vejo. Que ela ainda está lá, sob sapatos estressadíssimos. Que enquanto eu não atravessar aquela rua novamente e, olhando para baixo, constatar ausência de resíduos de folha amarela entre as gordas linhas brancas, ela não abandonará aquele pedaço de asfalto.
Ainda agora, debaixo de chuva, sei que ela está lá, ouvindo o Cartola que aqui canta. E vai permanecer, mesmo quando não houver nenhum “nós dois” para vê-la ou trabalhadores apressados para não vê-la ou chuva de frente fria ou voz de Cartola, que aqui canta.


acompanhem as pétalas desse de lírio lilás -    http://deliriolilas.blogspot.com/ 

Cativo

uma falha na face: basta – caminho pro coração
facilmente, tudo engasga de espasmo
soletra alfabeto pra virar um nada

a face, meia faca, amola a pressão do sorriso,
decota o mundo sóbrio – praticidade da vida pro acaso
(mais fácil seria a esmola de uma carranca pra sua metade séria)

absorvido – permeio de si – mastigando meios
coração devorador das metades de pontes
vão ... ficam ... tornam ... e somem
face pra face

boca: caminheiro vertido de vozes
faceta de agulha de verbo: descosturada
de razões desse peito...

30/11/2008

Sete Suicidas

O primeiro canto

não serei breve; paciência com o corredor que enxergas...
ah! paredes tolas; nossas cabeças estão degoladas, lá fora.
esse teto é um docel armado por cruzes e tridentes,
e o chão... tudo se dissolve em meio a acidez das passadas...

não há motivos para exasperos, não quero saber do nada mais,
ainda me sobram a cunha das mãos para moldar o que penso,
me sobram os dedos, ainda posso tragá-los e acariciar meus temores
ainda, ainda, ainda há vontades de lembrar do lá fora...

vamos todos, todos degolados, engatinhar no pasto,
enfrentar as pestes psíquicas do próximo vale;
valerá a pena reencontrar o que não sei desse descampado,
encontraremos um espelho deitado refrescando as perdas...

que importa saber dos dez lírios que plantei e você não colheu
meu amor será sempre essa rosa medonha e parca
que estoura quando ninguém mais tem mãos, braços e olhos
não me planto mais, não me rego, nunca me importei com o tempo....

(mentira!

Hoje, as dez da tarde, vou assaltar todas as padarias,
roubar de uma só vez toda a farinha do mundo
e convidar apenas os padeiros para um banquete espetacular,
quebrarei todas as mandíbulas dos dráculas da fila do pão...)

ah! noite perturbada; vou esquecer nosso encontro,
amputarei minhas pernas e doarei todos os meus olhos,
transplantarei para os outros cada ponta de vista que te tenho
e eles verão apenas dias e mais dias e mais dias, eu nunca mais dormirei...

quando olhei para esses telhados, encolhia os vãos desse corpo
e já estarei lá, neles, debruçado: toda a minha preguiça,
me esganiçando com os gatos, uma canção dessas tolas
meditando a queda da sua supremacia egípcia...

A Piedade (Poesia do Roberto Piva)

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos

29/11/2008

Visões del Sur

Bueno!
Me compreendes homem?

Complicado teu causo, meu senhor:
campear verdades, nas ilusões do teu Sur;
cosa séria: senhor-menino-descampado

ouves, Senhor:
teu sul-realismo é um cego admirando a geada, que não há

larga este açude, esses peixes já voam sós, feito cavalos

quando voltares as rendas da tua prenda
escuta o silêncio trazido dos partos da tua eternidade imaginária

e viste aquelas cercas? ... empunha a guitarra e reverbera o vento dos campos,
tropeia com teus filhos para longe da liberdade da varanda

e nos dias daqui, desta cidade-bairrista,
deposita confiança nessa caneca de calçada:
“ajude um pobre cego, cultivador de auroras, meu senhor”

27/09/2008

Vida e Morte Bergamota (por Uiliam Ferreira Boff)

roubar-te um aroma,
quando é antes idéia não transpirada, como?

amaldiçoar tua dádiva,
inda inteiriça se partida;

findar a promessa desta casca:
a vontade semeia, aí, a surpresa
– camadas e camadas de pele fresca –
pedaço de prazer velado
(em tua forma, sim, o primeiro pecado)

e mais que muitas é meia:
irônica agridoce (vale mais que inteira)
decerto descobre
gomos imaturos em línguas alheias;

as bocas tantas, poucas,
não adivinham de teu todo o fragmento;

casca-suco dilacerada,
adianta a herança fétida da tua morte.

24/09/2008

Desembarque (por Uiliam Ferreira Boff)

Vez ou outra desembarco em mim. Da vez última, atônitos os fantasmas dispersaram-se pelos águas, como barcas, e tudo pareceu estar longe, longe de novo. Estendi-me muito, numa viagem antiga de encontrar coisas passadas.

Mas não esbarrei em coisa alguma, nem mesmo naquelas que cuidei indiferente, que dei de beber aos mares e comer nas conchas essas migalhas que o acaso lhes provesse. Criei-as assim, de velas baixadas, aos cuidados da correnteza.

Tantas e de tantas, que as vi flutuantes, amedrontando-me, navegando-me furiosas, em minhas próprias vertigens... talvez fossem monstros imergindo de coisa nenhuma... e, eram apenas coisas boiando.

E o maior milagre foi não vê-las mais - que estratagema engenhoso esse, de ancorar as coisas em portos fantasmas, que nem a memória guarda - e quem não faria tamanho truísmo nesse abismo todo?!

Mas a cada instante, ouvia, cada vez mais perto, assombros vindos das vagas; de quem? E me lançava em inesperadas divagações... quantos fizeram, aqui, sua morada, estacando vidas e foram embora, assim, sem mais”.

Eis que seguia, encontrei, mais adentro, num turbilhão de coisas, quem chegava do mar: era eu, desembarcando...

17/09/2008

T... e... ( ).. p... o



“Eu ando nas ruas com o sol descolado da tua pessoa” (Tom e Chico)

É claro esse passo. Demarca um pedaço próprio (instante ingênuo, instante abatido, por uma reforma urbana apressada, cuja cobrança precede quaisquer regalias de posse)... mas ainda é claro; e o que haveria para encobrir, além da uma réstia de sombra?!

Um após o outro, cedem numa medida aleatória, onde se deposita, aritmética, toda essa parte do corpo que apenas o chão sempre reconhece. E dada a passada, é outra luta para não sentir mais a mesma saudade ( nova aflição de saber que, se uma hora pára, o corpo cessa e o mundo esbarra desgovernado).

Força ante força, somando e diminuindo (todos os antes, todos os depois da carne) o que precisa tencionar sobre o solo e aquilo que o solo rouba incólume - sinergia misteriosa - o corpo age sem distinção de lados, em revoluções. Quando já tormenta, pernas de torvelinho, reinventa-se roda e vai, vai, vai até... até que aliviado de toda física, admira as coisas que seguem, ali, aqui, à sua volta: intactas, distintas do resto que é rua, fuligem, sorriso, vertigem luminosa.

Contudo, ainda crê no átimo quente de luz, que vicia muito mais as coisas da idéia, que a idéia das coisas (ademais, o que não é brilho, são esperas ruminosas consumindo os calçados, sombras enraizadas espreitando no calçamento...).

E observa essas cenas - os aguardos de tudo - como se fossem honrosos presentes para o olhar, adivinhando o que escolherá, afinal, dessa rua...

04/08/2008

Duclós



Odeio tarefas
qualquer uma serve para estragar o dia
faço de conta que não existo
e quando menos esperas
lá estou a sussurar no ouvido
o perfume de um novo estufar de velas

Sou mais que um boa-praça
casei com o novo dia
conceitos atirei pela janela
e embora eles voltem para regular minha vida
confio neste incêndio que queima a goela.

(Nei Duclós - Outubro - 1975)

http://outubro.blogspot.com/

01/08/2008

Quanta tarde

peripécias sem desfecho da tarde
idas pra outras idas
e vês a tarde tarde
que recomeço fica
sem passar por aí?

em tempo de quando em quando
um bom tempo, que corta a língua
conta ainda o agora que vive de tarde em tarde

é uma memória relida
juntada aos pedaços
que entenda um talvez,
ainda que tarde,
que um quando
já vai se acabando

03/07/2008

da sala do solar



de perto,
as curvas lustrosas da parede ambígua
arrombam vertigens desde dentro,
povoando novamente velhos vitrais;

a sonoridade do silêncio encanado
(hábitos de não assoviar no solar)
traz do quintal encravado
apenas uma pérola sem cor;

é construção harmoniosa,
no equilíbrio circular da última sala,
mas se o centro
é a contraluz que suspende janelas,
o suspense vem
de uma centelha inesperada
adivinhada desde fora;

desse cenário sem arquiteto,
um rastro de visgo
espreita a ação.

02/07/2008

Póeris


dá-lhe,
que o que sinto é pouco
da malcheirosa cidade,
só dentes,
só estômago,
a feder toda porcaria
que não sintetiza;

vá lá,
veja
o que meu hálito
não cogita do podre,
o que meu humor não interpreta
do que o dia, já terminando,
escrementa pela calçada;

veja lá
o que lhe falo;
não é de todo,
é o que recortei
das sobras da imundice
e que colo no quarto, aqui;
é o que jogo pela janela,
pelo ralo do dia;
o que cago na porta ao lado:
- Com desejos de boas-vindas,
seu vizinho do 404.

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