Lamúrias:

Lamúrias:
Eu represento todas as pantomimas que apreendi vivendo. A vida me mimetiza como ela quer, mas aí tanto me valhe ser objeto ou construtor de sentido (representa-dor). Sou a palavra que tu leres. E isso já é muito para mim.

08/02/2010

ESPAÇO



(Ao grande mestre, o Silêncio
devo meu cá, meu lá)

Qualquer canto, cá ou lá,
inaugurou em mim a distância
e revogou a passada
para o futuro das coisas:

antes das coisas a palavra,
antes das palavras o som,
antes dos sons somente

...

Havia corpo antes do silêncio,
na madrugada da matéria
lá estava ele:

construindo meus braços,
arquejando minha boca,
lapidando entre veias e artérias
um músculo delirado,
vazio de uma costela

...

Havia palavra para criar
o corpo, palavra que jamais coube
na própria mesura:

era de dissabor
o seu trabalho nulo,
nomear a coisa que não pára
ora nasce, ora morre;
mesmo além ou aquém da palavra

...

Existia um espaço
atravessado na boca,
entre dentes e carnes:

a palavra corpo
balbuciada em surpresa;
nascendo dos lábios
intocada de posse
e liberta de tudo, distante

01/02/2010

CÂNCER


Câncer:

“Seus sentimentos estão em harmonia hoje. A facilidade de expressão e a capacidade de lidar com as pessoas criam uma atmosfera benéfica para boas conversas. Dia propício para deixar livre a imaginação. Se houver possibilidade de concretizar trabalhos por fazer, não exite: nada de deixar para amanhã!”

O horóscopo esqueceu de dizer...

Câncer:

Tenha cuidado. Seus braços enormes, capazes de abraçar o mundo, podem também esbarrar em quem está a sua volta. Essa sua incapacidade de mesura do gesto cedo ou tarde machucará alguém (inclusive a você mesmo)..

Não é à toa que demora em tomar decisões, meu caro canceriano. Seu coração enorme ocupa quase todo o espaço do corpo, sobra pouco para outros órgãos essenciais, inclusive aquele responsável pela razão.

Esse passo rápido é próprio de quem por cautela e medo vive indo da esquerda para direita, mesmo sabendo que por vezes ficar em espera é a melhor opção. E não se incomode com quem lhe fala que você não anda nem para frente, nem para trás; um rodopio no próprio eixo ainda faz a terra girar.

Mas se exponha, sempre que for chamado à disputa. Não se refugie quando o perigo se anunciar. Saiba que essa sua armadura blindada é um convite para aventureiros dispostos à lutas quaisquer. Não exite: o corpo é batalha aberta, não escolhe inimigos.

...

Pena! Com certeza nenhum jornal publicaria: - Malditas pinças gigantes!

29/01/2010

E LA NAVE VA!



Sim! É necessário saber como tudo acontece. Por que o sol nasce ou quando um sorriso morre?!

Resolvi isso ontem mesmo, quando beijava uma atriz de cinema. Foi preciso saber de tudo, para compreender os motivos da sua resposta fria, como se ela ainda atuasse. Como se técnico fosse seu beijo.

Aliás, a técnica do beijo não é privilégio das telinhas, palcos ou telonas. Desde que beijei pela vez primeira sabia: não bastava afastar um lábio de outro, tampouco inclinar a cabeça para o lado. Havia necessidade de preparo da emoção. Era preciso um laboro sentimental de contenção.

A boca, então fadada apenas aos prazeres da alimentação diária e de uma réstia de memória da amamentação da mãe, ela, a boca, renascia naquele primeiro beijo e em cada novo beijar, contudo menos inocente e menos crente em magias ou ocultismos.

No beijo, a boca recriava, também, a língua. Tão acostumada às asperezas e lisuras de toda matéria orgânica, que pouco à pouco definhava entre dentes e saliva. A língua acordava para o primeiro ato de canibalismo consentido, depois do deleite materno. Sim, todos fomos macunaímas um dia.

Pois, então... Apesar da pureza do lançar-se ao desconhecido, a boca alheia, eu soube, assim que recuperava o fôlego (passo concomitante ao aprendizado de todo o beijar) o árduo caminho de contenção do corpo: boca, língua, saliva, respiração, tremedeiras, excitação, etc...

O fato é: que ainda apreendendo e aprendendo como beijá-la, a boca sempre inaugura descobertas. Assim ocorreu ontem. Aproximei meus lábios dos dela. E aguardei. Ela se aproximou. Senti que era o momento esperado, depois de muitos encontros, e beijei. Beijei com toda a sabedoria acumulada. Meu corpo todo respondia sabedor do quê e do como fazer. Eu não senti nada. Pelo que notei, nada aconteceu do lado de lá.

Fiquei incomodado, afinal era novo o acontecimento. Sempre soube fazê-lo, o ato de beijar era uma especialidade dentre as poucas que tenho (ou tive). E toda uma insegurança foi dona de mim. Toda uma expectativa, repentinamente se dissolvia entre meu ofegar e a lágrima indecisa no canto do olhos. Ela dava-me às costas saindo triunfante da cena.

Hoje, arrependido, encontrei-a novamente. Queria explicar tudo e tentar entender o quê acontecia conosco, ou comigo. Mas, antes que esperasse, as coisas se encaminharam para um novo beijo, novamente. Parecia um déjà-vu da noite passada.

Os mesmos atos, o mesmo lugar. A mesma cena.

Ela se vai novamente. Eu fico.

E la Nave va termina. Eu limpo a tela marcada com a digital dos meus lábios, com o amor da minha boca. Entro no bote salva-vidas e remo com o rinoceronte para onde o sol nasce e os sorrisos morrem.


Ps. Quem descobrir meu amor nesse navio ( http://cinemacultura.blogspot.com/2009/08/e-la-nave-va-1983.html ) ganha um beijo e um sorriso!
Dica: é uma moça, sem nome!

26/01/2010

LUA CLARA*

*Para quem ler, um pedido: acompanhe a leitura juntamente com a canção



É calma a lua que se achega, bem ali, na sacada. E me visita, às vezes, para abrandar tudo que ela levou. É calma a lua, pé por pé, querendo entrar pela vidraça e iluminando, aos poucos, toda a treva de ausências: sua camisa de dormir, quase infantil; suas fotos felizes ao olhar o enquadramento das minhas lentes; a música tocada na hora dos corpos.

Saudade não é palavra para expressar isso tudo que me toma, assim, sem aviso.

A lua é clara, e calma. E reflete ela em mim, um lago esquecido pelo vento: essa superfície plana que ondula apenas quando um mar de memória transborda por entre os cílios ou quando uma salina se acumula e os olhos vermelhos não agüentam tanta dor.

A lua atravessa essa substância translúcida, sem sentido, que me separa do mundo e ainda assim me deixa vê-lo. E, logo, o quarto ilumina-se dessa luz pálida e carinhosa, como há anos se desacostumou a gostar. E todas as coisas que o breu guardou tomam de assalto meus olhos. Traz à tona tudo que, por pena de mim, afoguei entre paredes, gavetas, álbuns e pequenas anotações.

Estou deitado, procurando seu cheiro nos travesseiros, um cabelo entre as cobertas, um resquício de seu riso ao me pegar observando coisa alguma.

Estou deitado, procurando sentir seu leve espasmo antes de adormecer e sua voz carinhosa quando eu tinha pesadelos me dizendo: tá tudo bem...

E quando a lua se achega, ainda mais a mim, um pequeno solo de piano começa a reverberar por todo o cômodo. É como se a presença dela estivesse aos poucos se materializando. É como se os travesseiros recuperassem, sem razão aparente, o seu cheiro, como se as cores nas fotografias ganhassem a vivacidade de quando foram batidas. Como se sua voz cantarolasse essa pequena canção com o queixo recostado em meu ombro esquerdo.

A lua se deita e me diz que ela está bem. Conta-me que naquela noite também a visitou. E que ela, assim, lhe pediu:
- Faça a ele companhia, pois também estou só...

24/01/2010

A UM SABIÁ



Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!

(A um passarinho - Vinícus de Moares)


Há muito tempo ela não sorria. Sei disso pela sua foto na primeira vez que a vi: ela não sorria há muito.

Trocamos cartas. Desde a invenção da escrita, assim fazíamos, assim fazemos. Trocamos muitas palavras. Mas palavras o que são?! E, desde a vez que a vi, seu rosto permanecia ali, em mim, como um espelho que, gasto de projetar imagens, cansa e se parte em pedaços impossíveis, para que ninguém mais se admire nele.

Tinha dias que, de humor elevado, mandava-me lírios fotografados e depois de horas, em exaustão, olhando-os, percebia ela por detrás de cada uma daquelas flores. E, todas elas, apesar de lindas, nunca sorriam e, assim, ela nunca mesmo sorriu para mim.

Por isso, sempre revia sua imagem tentando roubar-lhe um sorriso. Mas ela cobria qualquer excesso de luz sobre o que sobrava de seu amor, de sua dor. E, desse modo, ia ficando mais e mais lilás.

Por isso, depois, entendi seu medo da luz; que era mais que medo: cogitei que o sol a invejava, causa e motivo pelos quais ele a maltratava a cada passo além da sombra segura da sua casa, do seu quarto.

Por isso, ela permanecia lá, e quando se aventurava à janela sabia que já era tarde demais para a tarde. Sabida a noite, ela se debruçava levemente para fora.

Sempre que a lia eu sabia: ela tinha muito a me contar. E mais ainda a me ensinar. Pena a descoberta tardia de que o que verdadeiramente me falava permanecia oculto entre uma palavra e outra, entre uma linha e a seguinte. Era nesse intervalo de silêncio, aonde o nada fingia e figurava, exatamente ali, ela soletrava seu mundo. Descobri tarde, porém, a tempo, um além de suas palavras.

Eu a aguardava, todas as semanas. Ás vezes, tonto de náusea pelo atraso do carteiro (se ele fosse poeta saberia o mal que isso traz). Mas, a cada carta nova que abria, sentia em (des)dobradas alegrias o que a espera tinha me selado em angústia e tristeza.

E soube, então: foi ela quem me fez crer numa folha amarelada caída de uma mangueira, esquecida sobre o asfalto. - A folha ainda está lá! Ela dizia. Eu que nem sequer sabia de sua existência, cri! Hoje sei. Foi ela, também, quem me mostrou um coelho branco que se esconde na lua. Ela, a menina dos olhos imensos como a lua, mostrou-me o fel do paraíso; e eu a fiz acreditar que “um anjo torto, desses que vivem na sombra”, apesar e por ter caído, também já teve asas.

Foram-se as estações... Ela me mandou a primavera no bico dum sabiá. E eu plantei uma camisa florida, que colho no dia que nos encontrarmos. Mas ela jamais sorria. Havia noites que ela tinha pesadelos; eu sonhava com ela. Na outra semana me escrevia contando que me ouvira em seu penar pelas terras de Morfeu. Mas ela jamais sorria.

Numa alvorada qualquer, encontrei uma carta, na beirada da minha janela. Era o sabiá que a trazia! Abri com ternura o envelope e o sabiá paciente, em espera, me fitava. Era uma foto dela. Ela olhava para a lente com candura, contudo não sorria. Na imagem, sua boca batalhava a fim de decotar qualquer promissor sorriso. Até que debaixo das sobrancelhas, bem ali, vacilaram um pouco seus olhos, e pronto: fez-se uma curvatura distinta. Você sorriu.

Eu gritei: - Ela sorri!? E o sabiá saiu voando contar a ela a novidade!

Para B. M.

16/01/2010

RIMA RICA / FRASE FEITA - Nei Lisboa (álbum: Hein?!)

Desculpe, meu bem
Se ontem te fiz chorar
Mas a vida é assim mesmo
Não se pode exigir
Pouco dá pra esperar
Muito obrigado por tudo
Pelo teu suor, pelos teus gemidos
E espero que a minha estupidez
Cicatrize teus sentimentos feridos
Nasci e morro assim, só
Perdido no escuro, dentro de mim
E vou cruzando o barro
Vou comendo pó
Até que chegue o fim
Mas a força eu retiro
Sugo feito vampiro
De saber que as estrelas
Também vivem sós
De um cigarro amassado
De uma rua deserta
De outros que até eu posso sentir dó
Da menina de olhos grandes como a lua
De uma noite sentindo tua carne crua
E dos bares, das festas
Dos vinhos, serestas
Das mentes infestas de podres horrores
De mil desamores
Do chope das quatro
Desse louco mundo putrefato
Dessa grande peça de teatro


15/01/2010

Memória - Carlos Drummond de Andrade

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão."

06/12/2009

PROLEGÔMENOS

(Quem sabe essa obra inaugure uma vida desencontrada
daquilo que a poesia admira ou ignora?!)

o leitor austero
imita em si uma liberdade,
sem crítica;

prontamente grita:
sou Homero e
Sófocles,
canto e trago em mim a Desmedida;

o leitor esperto
germina uma crítica
e inaugura liberdades:

– dessas retinas fluíram o que é cânone,
e domestiquei a preguiça,
que é repetir hierarquias

(desse desmesurado intento
extintos sentimentos me inflamaram:)

– sou a voz lúgubre,
que incendiou Alexandria e Roma,
que aniquilou mosteiros e Rosas sem nome –
(quem é chama distingue-se no breu,
quem é sombra, apaga-se quando algo brilha )

– abri portas ao diabo e o recolhi com festejos,
juntos recebemos todos os malditos desta Terra,
moribundos comedores de letras,
desertores incompreensíveis
da vida fácil,
que já estava escrita.

27/11/2009

AS ESFERAS DOS PONTEIROS

Redonda-me esfera das horas
e rola sobre tudo que é esmola:

quando sou todo roubo
de meta e física, desinteressadas;
força, inda que côncava,
e extravasa minha mira,
mas não retraias cômica
à minha própria física.

Redonda-me esfera das horas
e rola sobre tudo que amola:

sempre que afio o destino
em qualquer encruzilhada;
desafia meu passo incerto
onde habitam pegadas
de retidão sem sentido
de voltas sem revolução.

Redonda-me esfera das horas
e rola sobre tudo que apaga:

nos meus dias de aridez de ação
e de cinzas antes da chama;
afoga meu fogo de palha
meu paiol de tinteiro
e com pontas de agulhas
fagulha em mim um discurso inteiro.

Redonda-me esfera das horas
e rola sobre tudo que chora:

das vezes sem mares no peito,
e o mundo inda quero salgar;
atrasa a palavra tempo,
e a transborda com tuas esferas,
onde uma seta desenha pérolas,
onde uma concha já fora grão

...

Espera-me esfera das horas...

20/11/2009

A RETÓRICA DA PRESSA

Há um fato irremediável em nossos dias: há pressa (para tudo). Ainda assim, não temos tempo para sabê-la.

Preferimos não constatar o ziguezague dos motociclistas, costurando por entre o tráfego, uma coreografia para cerzir ponteiros de relógios, antes da próxima entrega. No entanto, desejamos nossos documentos entregues antes do próximo quartel de hora (sem arranhões e que cheguem sãos e salvos).

Optamos por não compreender um corpo descuidado que, subitamente, para pela calçada, para conversar com outro velho corpo, amigo. Todavia, não nos incomodamos em achar ou guardar um lugar na fila do banco, para pagar contas de um amigo de última hora.

“Ora, estou ao telefone. Está com pressa? Passa por cima!”. Diria, e diz, o educado e solitário cavalheiro em seu carro importado. Enquanto um ônibus atulhado de trabalhadores aguarda o próximo sinal verde, que por hora se apaga. O mesmo gentleman que, generosamente, acelera seu possante ao ver que um outro coletivo ameaça tomar-lhe a dianteira, saindo do acostamento. Realizando, desse modo, um legítimo ato solidário, para que seus 54 ocupantes não se envolvam na caótica avenida e aguardem mais alguns minutos até que a via esteja calma e segura. Um cidadão exemplar, que realiza com bravura essa mesma e benevolente ação com os cadeirantes, com senhores e senhoras de idade (e, até mesmo, com criancinhas), que merecem toda a atenção ao tentar atravessar uma faixa de segurança.

Na nossa disputa diária, na nossa corrida de seres humanos, porém, ganha, não aquele que tem mais pressa, mas aquele que tem mais paciência: “O menino está agonizando!”... “Pois não... Por favor, aguarde a chamada da sua senha, senhora; a menos, é lógico, que a senhora tenha convênio. Nesse caso basta entrar pela outra porta. Caso não seja conveniada, não se aflija, a morte não tem pressa, não é!?”

Mas, tenhamos mais do que calma, tenhamos e aprendamos a desenvolver a resignação: “...então, quer dizer que o seu processo ainda não foi julgado. Eu lhe avisei, era mais fácil ter esquecido o caso. Afinal esse tipo de atraso não é o primeiro, nem será o último. Aliás, não há motivo para tantas reclamações, o senhor não acha!? Aqui, o senhor tem cama, comida e roupa lavada... em que outro lugar o senhor teria tantos privilégios. Além do mais, o senhor dispõe de uma hora de sol por dia e uma visita da família por mês, e família, meu amigo, às vezes, só nos dá mais problemas...”

E aqui termino, para não tomar muito de seu valioso tempo. Mesmo porque tenho que entrar no meu twitter, ver meu blog, responder meus e-mails... Puts, esqueci novamente meu filho na escola... até mais. Fui!

19/11/2009

O ÚLTIMO TANGO QUE PERDI

Às vezes, caminhando pelas calçadas estreitas, do tamanho da paciência que as pessoas têm umas com as outras, nessa pressa dos dias, não é raro avistar, numa esquina qualquer, transeuntes, passantes, flauneurs, na direção exatamente oposta dos meus passos.

Nesses parcos momentos o acaso teima, por vezes, em lançar peças de um cadenciado dilema: um outro que vem, em seus pensamentos próprios, em seu labirinto próprio, converge na mesma e particular rota, escolhida por mim, que logo penso: vou-me para lá! Ao que o outro, em sintonia de corpos, já pensa no mesmo instante e determina à sua musculatura: para lá! Ato prévio do imprevisto, desloco-me para acolá, percebendo no rosto, cada vez mais abrupto, certo embaraço.

Porém, nosso ato é falho. Pois, na medida do concerto de um, há o desconcerto do outro; nisso estamos de acordo. E, sem prévias apresentações, figuramos um balé insensato, iniciado entre a disritmia de buzinas, conversas avulsas e olhares alhures.

Ambos envoltos nesse descompasso de um dois-pra-lá, dois-pra-cá, olhamo-nos, encabulados, adivinhando, sem o menor consentimento, o equivocado e alheio passo. Então, estamos próximos de uma intimidade acidental, dessas que apenas espaços públicos são capazes de proporcionar.

Nesse momento, penso que há infindáveis escolhas para seguirmos o baile truncado, eu e meu par, ou encerrarmos com uma troca de pares, nosso baião de doidos. E mesmo se, por uma eventualidade, titubeio no embalo, não há jeito: seguimos o trote, pois meu par já me adivinha, certo do nosso enlace. De nada adianta ignorar-lhe, porque estamos na pista e, mesmo sem desejarmos, toda a via já reconhece nosso bailar encruzilhado. Podemos, talvez, baixar os semblantes, esquecermo-nos por um instante, e ver até aonde a curiosidade nos levará. Quem sabe, ainda, temos o tempo de um disparate, e passarmos de banda, para o outro lado do passeio, num ritmo popular...

Mas há uma última volta e nessa a dança se encerra. Contudo, cabe um aviso: àqueles que não sabem assoviar, mil perdões, mas este xote é só para quem já ouviu e sabe imitar o sabiá. Primeiro, há de se olhar para o seu par e abrir um sorriso, desses que a boca fique menos à mostra que o siso. Depois, há de se aproximar os lábios e assoviar qualquer melodia que apareça e caminhar conforme a cadência da música. Ah!

Falta a nota essencial: manter uma trajetória, escolhida a esmo, e passar com falso desdém pelo acompanhante de última hora.

Da última vez que isso me aconteceu, segui pela calçada e larguei meu par sob o holofote das vitrines, em meio a outros pares. No entanto, fora tanta sintonia, tantos acordes e piruetas mútuas que, ao passar do seu lado, já arrependido prometi: da próxima vez, com uma flor entre os dentes, paro em frente à dançarina e tiro-a para um tango no meio da avenida.

13/07/2009

DIVA DOS MEUS SONHOS

Oh musa britadeira que trouxeste
ruídos decantados da cidade,
empresta-me um som bruto e ligeiro,
tipo turbina dum 347.

Invadas no chão o pavio da cidade,
como um velho explodindo os campos,
mas me acuda dessa chuva celeste
de revolveres, fuzis e morteiros

Britadeira! Levantas minha noite,
antes da luz devorar meus cavalos
e ruminar os bois do meu tempo;
acorda no meu braço o infarto
pra ressentir aquilo que não lembro,
pra não morrer a voz do braço esquerdo!

26/01/2009

Reforma (por Uiliam Ferreira Boff)

Por medidas mórbidas,
procuro morfemas simples,
verbalizações concretas como caneta e papel;
não me asseguro mais das formas que vem do além.

Para tanto, sossego;
dou-me tempo
(ele me doa pensamentos)

mas a regra me doa um só,
para agir um só:
semcontarcomcantosdistintos,gravurasdiversasdepensarmundos...

Perdi meus encantos bilíngues (um grifo vermelho me lembra)
na expressão prosaica da regra
que insiste sobre o que vive na virtualidade;

resolvido: parei!
a vida para (pára?!), ou melhor:
resolveram por mim os juízes mortos
das escrivaninhas e academias neo-nadísticas;

(nem o computador me salva!?...)

cá pra mim,
reformar-me-ia-se-formasse-trema-hifenizante!!!

08/01/2009

Ilha Café Blog do Coletivo Literário Cardamomo.

Trechos de sujeitos:


A NÃO-PALAVRA (por Fabrício Fortes)
A fala que mora
no meio das tuas palavras
não se pode pôr no papel.

...


BOCA MALDITA (por Daniel Retamoso Palma)
A boca mal dita a sombra
do que sabe de si
o corpo

...


TECIDO DO ABANDONO (por Odemir Tex Jr.)
Este é o tecido que cobre
Todos os móveis do abandono

...


SETE SUICIDAS (por Uiliam Ferreira Boff)
que importa saber dos dez lírios que plantei e você não colheu
meu amor será sempre essa rosa medonha e parca
que estoura quando ninguém mais tem mãos, braços e olhos
não me planto mais, não me rego, nunca me importei com o tempo....

...

mais goles: http://ilhacafe.blogspot.com/

07/01/2009

Bilhete - texto de Bruna Mitrano, do blog de lírio lilas

Ei!, sabe o que lembrei agora? D’aquela folha amarela (pisoteada) que vimos bem na faixa de pedestres num sinal em Copacabana. Você podia jurar que eu escreveria algo sobre a folha que, sem nenhuma dúvida, só nós dois vimos. Não escrevi. Você fez questão de demonstrar decepção. Porque não escrevi. Aí eu disse que a gente não escreve sobre o que quer, nem quando, nem onde; uma meia verdade que me pareceu inteira no momento em que eu falava quase sem pensar a respeito. Não escrevi.
Escrevo então p’ra dizer que não, não pretendo escrever sobre a folha amarela, nossa folha amarela, de amendoeira, se não me engano. Por que então? P’ra dizer que ainda a vejo. Que ela ainda está lá, sob sapatos estressadíssimos. Que enquanto eu não atravessar aquela rua novamente e, olhando para baixo, constatar ausência de resíduos de folha amarela entre as gordas linhas brancas, ela não abandonará aquele pedaço de asfalto.
Ainda agora, debaixo de chuva, sei que ela está lá, ouvindo o Cartola que aqui canta. E vai permanecer, mesmo quando não houver nenhum “nós dois” para vê-la ou trabalhadores apressados para não vê-la ou chuva de frente fria ou voz de Cartola, que aqui canta.


acompanhem as pétalas desse de lírio lilás -    http://deliriolilas.blogspot.com/ 

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