Às vezes, caminhando pelas calçadas estreitas, do tamanho da paciência que as pessoas têm umas com as outras, nessa pressa dos dias, não é raro avistar, numa esquina qualquer, transeuntes, passantes, flauneurs, na direção exatamente oposta dos meus passos.
Nesses parcos momentos o acaso teima, por vezes, em lançar peças de um cadenciado dilema: um outro que vem, em seus pensamentos próprios, em seu labirinto próprio, converge na mesma e particular rota, escolhida por mim, que logo penso: vou-me para lá! Ao que o outro, em sintonia de corpos, já pensa no mesmo instante e determina à sua musculatura: para lá! Ato prévio do imprevisto, desloco-me para acolá, percebendo no rosto, cada vez mais abrupto, certo embaraço.
Porém, nosso ato é falho. Pois, na medida do concerto de um, há o desconcerto do outro; nisso estamos de acordo. E, sem prévias apresentações, figuramos um balé insensato, iniciado entre a disritmia de buzinas, conversas avulsas e olhares alhures.
Ambos envoltos nesse descompasso de um dois-pra-lá, dois-pra-cá, olhamo-nos, encabulados, adivinhando, sem o menor consentimento, o equivocado e alheio passo. Então, estamos próximos de uma intimidade acidental, dessas que apenas espaços públicos são capazes de proporcionar.
Nesse momento, penso que há infindáveis escolhas para seguirmos o baile truncado, eu e meu par, ou encerrarmos com uma troca de pares, nosso baião de doidos. E mesmo se, por uma eventualidade, titubeio no embalo, não há jeito: seguimos o trote, pois meu par já me adivinha, certo do nosso enlace. De nada adianta ignorar-lhe, porque estamos na pista e, mesmo sem desejarmos, toda a via já reconhece nosso bailar encruzilhado. Podemos, talvez, baixar os semblantes, esquecermo-nos por um instante, e ver até aonde a curiosidade nos levará. Quem sabe, ainda, temos o tempo de um disparate, e passarmos de banda, para o outro lado do passeio, num ritmo popular...
Mas há uma última volta e nessa a dança se encerra. Contudo, cabe um aviso: àqueles que não sabem assoviar, mil perdões, mas este xote é só para quem já ouviu e sabe imitar o sabiá. Primeiro, há de se olhar para o seu par e abrir um sorriso, desses que a boca fique menos à mostra que o siso. Depois, há de se aproximar os lábios e assoviar qualquer melodia que apareça e caminhar conforme a cadência da música. Ah!
Falta a nota essencial: manter uma trajetória, escolhida a esmo, e passar com falso desdém pelo acompanhante de última hora.
Da última vez que isso me aconteceu, segui pela calçada e larguei meu par sob o holofote das vitrines, em meio a outros pares. No entanto, fora tanta sintonia, tantos acordes e piruetas mútuas que, ao passar do seu lado, já arrependido prometi: da próxima vez, com uma flor entre os dentes, paro em frente à dançarina e tiro-a para um tango no meio da avenida.