29/11/2011

Eu, Valentina, Dantas.

Acordo cedo: pão, manteiga, biscoito de coco, geléia de abacaxi; tudo na geladeira. Levanto mais tarde, tempos depois de ter aberto os olhos que, desde o calor do quarto, invejavam a baixa temperatura do eletrodoméstico. Durmo um pouco mais, antes da hora de pôr-me em pé. Agora sim: pão, manteiga, biscoito de coco, geléia de abacaxi, tudo sobre a mesa (as coisas, saídas do frio da geladeira, parecem chorar em marcas circulares de mágoas: meu esquecimento sobre a toalha xadreza). Fome – excluídas as manhãs nas quais eu a ignoro, não tenho; senão, invariavelmente, – a de café e cigarrilha barata. Um dia ainda compro uma cafeteira programável. Assim, poderei dormir mais e acordar com meu café passado, e frio: estilos de consumo. Um dia, ainda compro o cachimbo que completara a minha alma de escritor enevoado pelo próprio olhar. Aí poderei tragar a lógica da fama e acender alheio a qualquer leitor: estilos de hermética. Digressões a parte, desse líquido gélido sorvo seu amargor e vou reconhecendo, desde as papilas da língua, o trincar dos músculos que envolvem a traquéia, e que, em seguida, inicia uma leve queimação no alto do estômago (pequenos sofrimentos forçados, para me satisfazer como artista, de fato, e de vícios); da fumaça sorvo, somente, o soco nos pulmões. Depois, dou um bom dia à tela plana, de cristais líquidos, que aceitará, quem sabe de viés, minhas pulsões escriturais.

Não saber os motivos dessa escrita cretina, me agrada demais. Como me agrada não ter projeto algum para as próximas horas desse dia de véspera. Mas, véspera de quê? Ignoro esta falsa questão, porque perguntar retoricamente (para si) é artifício da loucura e o que sobra de sanidade em mim não me permite prosseguir filosofando a esta altura da manhã. Sei apenas que devo completar os desvãos das horas, entre os ponteiros e os números: – uma máxima – o mundo, como o relógio, está cheio de números! E minha revolta é saber dessas fissuras entre um numeral e outro. E, eu, objeto das dízimas, eu – arqueólogo dos nadas, profanador de relicários pessoais, pirata nas reticências dos silêncios, hermeneuta de escrituras apócrifas – sigo inscrevendo as palavras que me faltam.

O caso é que desconheço as razões desse dia de véspera e, além de me agradar o vazio de um lamento olvidado, só sei que devo prosseguir. Devorar tabacos catrefas e cafeínas desprezadas pelo passado de ebulições em H2O. Seguir para esquecer os maus sonhos da noite anterior, desventuras que não recordo, apenas sei que me foram desagradáveis. Paro, então, para distinguir cada hábito do corpo. Duas xícaras de café, alguns cigarros e estou pronto: sento-me à privada. Escuto os grunhidos do monstro que me habita as entranhas. Convenço-me da vida, na carne que usufruo essa manhã. Contudo: sou, apenas quando escrevo. Concluo que toda narrativa humana é, de alguma maneira, íntima e depreendo disso mais uma máxima: fede.

Dou a descarga, com muito desgosto. Ah! O quanto me incomoda ver a água límpida levando essa verdade pensada, em decurso, nem convém expressar: imagino. Faço uso dos labirintos, das infindáveis galerias da rede municipal de esgoto. Sigo meu axioma bruto a se encontrar com tantos outros, pela escuridão gasosa da tubulação. Prenhes de premissas, tão bem assentadas. Esses super-dogmas percorrem um caminho pelo vaivém de conexões, metragens cúbicas diferenciadas, até desembocarem num rio qualquer. E, de lá, eles me perdem. Volto aos afazeres vespertinos, meus crimes digitais: indicadores, médios, anelares e mínimos, impacientes, porém firmes, sobre o teclado do computador; polegares opositores, eu não os tenho. Olho para as mãos animalescas e relembro de quando sabia contar até dez.

***

Já é o terceiro dia que, ao acordar, flash-backs de minha história invadem a velha rotina. Decorre disso que, há três manhãs, sento-me à privada e nada. Apenas esse mijo dourado, fétido; jatos quentes na boca da cerâmica cinza. As verdades acabaram? É, de tudo, um liquidar-se do que penso e escrevo. Sim, pois minha barriga incha, e nada me ocorre ou escorre até as oito digitais das mãos. Talvez, cresça no ventre, uma verdade tão plena, que o corpo, avarento, não queira compartilhar. Quem sabe, o monstro, a Esfinge que em mim devora, tenha sido desvendado, mas o corpo, arraigado aos mistérios, não quer saber de partidas e das saudades que, porventura, virão:

Flash-Back nº 1:
Eu e Valentina. Madrugada. Apartamento dela.

Ambos nus. Valentina vai ao banheiro, enquanto eu assisto a um vídeo que ela escolheu: “O Homem nu” (filme de estilo non-sense, posterior a fase do Cinema Novo brasileiro). O escritor, protagonista do filme, morador da cidade do Rio de Janeiro, precisa pegar um avião para São Paulo (noite de autógrafos de seu novo livro sobre folclore e música brasileira). Chove picas fora do aeroporto. Na sala de espera para o embarque o escritor encontra alguns músicos. Dentre eles estão um velho amigo e sua sobrinha, que também rumariam para a capital paulista. Todos os vôos são cancelados, devido ao mal tempo. O escritor e o resto da turma, que se formara no saguão, ingressam em um taxi, seguindo até ao edifício onde mora a sobrinha de seu amigo. Noite afora, o escritor se embebeda e se envolve com a jovem sobrinha. No dia seguinte, acorda na cama dela, completamente nu. Percorre a casa, escuta o barulho do chuveiro. Espicha o pescoço pela porta entreaberta. Através do Box, a moça pede a ele que apanhe o pão, do lado de fora da porta que dá acesso ao seu apartamento. Ainda zonzo pela bebedeira, o sujeito abre a porta e, sorrateiro, observa a calmaria dos corredores internos do andar. Esconde o pau e as bolas com as mãos e se afasta um pouco da entrada para recolher o pão. Então, uma corrente de ar inesperada sela a porta de entrada, deixando-o trancado pelo lado de fora. Em desespero, o escritor toca a campainha, que não é escutada pela moça no banho. Nesse instante, um morador sai de outro apartamento e, avistando o sujeito nu, faz-lhe ameaças. Sem tempo para explicar a situação, outro morador do prédio, uma senhora, surpreende-se com a cena e inicia a esbravejar: “Tarado!”. O homem nu, aflito, desce as escadas e, daí em diante, inicia toda uma peripécia de perseguições, acusações e determinações ao seu respeito que, mesmo infundadas para o seu caso, são noticiadas pela mídia através do epíteto: o Tarado Nu.

Desde o quarto, vejo Valentina na privada, debruçada com os cotovelos sobre os joelhos, e as mãos sustentando o queixo, a me perguntar que cena do filme eu assisto naquele instante. Eu respondo; ela ri. Fato que se repete pelo menos três vezes, enquanto ela expele aquela sua merda quase inodora, de tonalidade pastel. Sei disso porque costumamos conversar enquanto ela defeca: em algumas vezes ela senta-se e eu a escovo os dentes, na pia ao lado dela. Foi numa dessas ocasiões que, ao vê-la se levantar do assento da privada, antes que desse a descarga, observei a parca coloração e a quase falta de cheiro de sua bosta; excremento, contudo, diametralmente oposto à sua personalidade: de tom forte, de quem fareja as coisas da vida de forma decidida. Ela vem à cama. Assistimos juntos ao restante do filme. Ela dorme. Eu pouco presto atenção ao desfecho que, aliás, é um moto-contínuo: o protagonista consegue chegar ao seu apartamento, mas quem lhe abre a porta é seu editor, vestido com seu roupão, (ao fundo a mulher do escritor pergunta ao editor: “Amor, quem é?”, em seguida, ela aparece nua na entrada do corredor sala, e trava a voz, surpreendida). O escritor, com uma faca que pegara na cozinha, ameaça seu editor, levando-o até ao lado de fora do apartamento, retira-lhe o roupão, e, assim, o editor, assume “a personagem”: o Tarado Nu. O Editor sofre a ameaça de vizinhos e passa, assim, a ser perseguido pela massa gregária da população e repórteres na calçada em frente ao prédio. Mas repito, pouco dou atenção ao filme; fico pensando no momento epifânico: quando contrastei o caráter de Valentina com suas fezes. E, por derivações, lembro o quanto minha merda é retinta e fedorenta.

Flash-Back nº 2:
Eu, Valentina

E como ela não podia ver nada, eu olhava por ela. Olhava por ela a vida, as coisas, os casais infelizes, andando de mãos atadas pela pressa das calçadas estreitas. Tudo olhava por ela, à espreita dos olhos do mundo, e voltava tardiamente ao lar para lhe narrar as coisas que ví. Ela ouvia minha chegada metálica, eu “o molho de chaves”. Ela aguardava o abafado encontro da madeira da porta com a madeira do batente e só então iniciava. Sentada, entre almofadas gastas do sofá grená, ela se queixava da materialidade do sombrio apartamento, questionava as tantas quinas dos móveis, e me responsabilizava pelas minhas arestas largas; eu me perguntava há quanto tempo a champanha babava suor, esquecida sobre a mesinha da sala, no calor daquelas tardes tropicais:

Valentina: “...e nunca soubeste, mesmo, não é Antero, o que é viver nesse castelo construído por ti?”. Minha gastrite já flotava, e pelas vísceras sentia a pressão de suportar seu olhar amargurado e crescido em mim. Eu punha a mão entre os botões da camisa, passada pelo amasso das oito horas diárias de sanidade servil, e pressionava a lava que ameaçava irromper-me através da laringe. Até que me irrompia:

Eu: “Não sou amo de ninguém, minha cara, não tenho trono sobre colonato estranho ao meu, não adquiri acúmulos indevidos sobre esforços de outrem, e sendo senhoril, apenas, da minha própria força, não furtei o livre arbítrio das escolhas alheias, nesse caso as tuas, e, portanto, tampouco fui eu a extirpar com uma colher de sobremesa as órbitas da tua lucidez.”
Valentina: “Então, não te acometes de culpa, Antero? Cegas-te e não sentes teus pés empapados sobre o carpete inflamado de sanguinária infâmia? Saiba que se fiz aquilo foi por que...”.

Flash-Back nº3:
Eu, Valentina e aquele Senhor

Valentina, atrás da mesa, olha o escuro papel de parede, atrás de mim e do sofá da sala aonde espero. Ela baixa o semblante, anota algo, torna a cabeça sobre o seu ombro esquerdo em direção a janela. Semanas depois, eu acordaria seus olhos para mim, para toda a ventura além dos vitrais de sua alucinação, mas, agora, Valentina sentada em sua cadeira de secretária. Semanas depois, eu mostraria para ela um além das coisas organizadas sobre os dois metros quadrados de mogno envernizado e gasto pelos seus cotovelos. Seus cansados cotovelos sustentando uma cabeça incrível, que eu conheceria semanas depois: Valentina, vinte e sete anos, onze deles deformando carteiras bestiais, assim como eu. Onze anos de cumprimento da responsabilidade cidadã de ser (sem saber o porquê de estar sendo, de permanecer sentada, e eu, e você também, naquelas carteiras, programadas para a construção das bestas fabris da sociedade perpétua, ascética). Valentina, desde o nascimento até aos sete anos acumulando traumas, acumulando memórias, adquiridas em pouco mais de dois mil dias, e os dias restantes dependeria, como dependemos todos, do caro analista para o reembolso. Valentina, dez anos de acúmulo em experimentos sexuais, no meu caso dezoito, que iniciei cedo nas desventuras do corpo. Eu, Antero, trinta anos sem saber que aguardava Valentina desacoplar seus antebraços da madeira de lei, naquele escritório de advocacia:

Valentina:“Boa tarde, em que posso lhe ajudar?”
Eu: “Queria falar com Dantas...”
Valentina: “Pois não, aguarde que já o comunicarei.
...
Valentina: “Pode passar, senhor Antero.”
Eu: “Obrigado... mas, como é seu nome?”
Valentina: “Valentina, Senhor.”
...
Dantas: “Meu caro, como vai?”.
Eu: “Vou indo, Dantas...”
Dantas: “Você sempre vai indo, não é meu amigo?!”. Pensei no quanto valia a pena estar ali, em frente daquele sujeito gordo, com os bolsos cheios de dinheiro, completamente fechados. Dantas, eu o conheci há muito tempo, na época em que ele cursava artes plásticas e sonhava com suas pinturas realistas. E que depois se enveredaria pelo barroco histórico mineiro, e que depois voltaria, aqui, para o sul com a barba grande, liso de grana, e que depois arrumaria um emprego num escritório de advocacia, e que depois, com a estranha morte de Araújo, assumiria o escritório. Mas, antes disso tudo, Dantas cursaria direito, noturno, pensando na futura sociedade com Araújo, que nunca aconteceu.

Flash-Back nº4
Valentina, eu.

Valentina: “... saiba que se fiz aquilo foi por que...”.
Eu:“... fez aquilo porque fazia sempre, não é Valentina? Fez a sua dose diária de devaneios, esquentando uma colher na chama azulada do fogão, esperando ferver o líquido que invadiria suas veias e a encheria de fúria e de coragem, para seguir sobressaltada pelas escadas, maquiando a escuridão abaixo e acima dos seus olhos, vestindo sua cara noturna de perdição, entre bares, amigos encontrados nas última horas das doses efêmeras. Fez aquilo, o de sempre (sabia que não poderia me questionar), aquilo que lhe doía e você não me contava, o que lhe afligia e você julgava ser eu, eu o seu ‘inquisidor’, não é; aquele cujo zelo lhe fazia cativa, sem saber que era você mesma quem cativava sua solidão?”.

Flash-Back nº5
Eu e Dantas.

Dantas: “Pois, então, o que o traz aqui?”.
Eu: “Nada demais, estava passando e resolvi entrar.” (Mentira).
Dantas: “Sente-se, tem café fresco aí na térmica, sirva-se”.
Eu: “Obrigado”. Enquanto girava a colher e, depois, provava aquele café que acordava o vulcão no meu ventre, olhei para aquele perfil sentado e não sabia o que pensar sobre a solicitude com a qual era recebido. Não é normal ser acolhido assim. Há três explicações para que as pessoas recebam você bem em lugares como estes: 1) querem foder você; 2) querem saber se você não está tentando fodê-las, ou 3) estão fodidas. Felizmente não era nenhum dos casos.

Eu: “Como está?” (pergunta para boi dormir, nesse caso eu queria “fazer” o boi dormir e roubar-lhe a nobreza das carnes).
Dantas: “Bem” (resposta de quem rumina ainda, em pleno sol da tarde, e não está nem aí para a lâmina ardente que carrego enrustida na cintura).
Eu: “Muuuu” (o mesmo que “E você, vai bem?”).
Dantas: “Muuuouu” (ou “tudo bem, também”. Silêncio. Ambos tentando descobrir que capim era triturado na boca do outro). Cansei daquelas sutilezas animais:

Eu:“Então, tem tempo para um chopp?”.
Dantas: “Mais tarde, agora não posso” (alguns quadrúpedes só se hidratam quando encontram água, contudo quando encontram se esbaldam).
Eu: “Às sete, então?”.
Dantas: “Aonde?” (alguns mesmo não sabem onde passa o rio).
Eu: “No ‘São Francisco’, pode ser?”.

No bar, aguardei o tempo de dois chopps:

Eu: “Não vem mais ao encontro”. Já pagava a conta, quando senti um cheiro terrível. Voltei-me para o lado do fedor e estava ali:

Dantas: “Está sentindo?”.
Eu: “O quê?”.
Dantas:“Pisei num esterco, ali na esquina... garçom, o banheiro?”. Enquanto esperava que voltasse, sentei novamente e rememorei o que iria lhe falar.

10/11/2011

UM SABOR É VAZIO

pululam vozes eróticas pelos ângulos esguios
das páginas pautadas
sons e pontos de fuga e fusão

é tanto
e é só deletério
adultério e comoção:
as gargantas intactas no pecado

um tanto de sífilis
salvará nossas bocas?!

nossos pensamentos
...não?

16/05/2011

OUTONAR

Meu tempo:
antisala de calafrios;

arredia festa do sol sobre espaços,
passos querendo falar pela boca seca da folhas,
folhas brincando e o chão querendo voar;

eu não vôo, e já quis a certeza das pedras
inteiras, estáticas, querendo... querendo...

e de querer tanto
me fiz migalha poeirenta
que o vão das calçadas mostrou:

- Aqueles restos são espelhos
e águas furtivas levaram de ti.

...

É desse tempo,
de coisas caídas ganhando asas
e de olhos pendidos perdendo alturas,
que o vento sussurra
para secar todas as mãos...

31/01/2011

TEORIAS ANTES DO SOL

Longa deformação. Cinco anos dessa indisciplina humana: meu estudo, in locus, anti-darwinista.

***

Razão e sobriedade; sentada sobre a poltrona, evitando meus olhos, sorvendo um chá gelado. É Lúcia, em perfeição.

Depois, já sobre cobertores, ela começa a tremer. São os efeitos daquela substância viciante, dissipada desde seu córtex cerebral. Pálpebras seladas contra a fronha, dedos das mãos cerrados, contrariando certa materialidade do travesseiro. Enquanto isso, eu observo o nascimento de seu dorso: simétrico, abrindo o sulco de um rio através de seu vale nu. Verte suor entre as montanhas das suas espáduas, e, brevemente, a correnteza se encoraja em meio às suas costelas, desce e se acumula profunda na base de seu quadril (possível lagoa, possível lordose).

Do longe ao perto, minha visão acompanha a precipitada enxurrada na sua superfície epidérmica, lavando uma mata de pequenos pelos aloirados; geografia do corpo que um dia amei. Então me engano. Não termina ali o caminho natural de suas águas. Dentre duas pedras gêmeas unidas, arredondadas e róseas, ressurge o rio, roçando as pestanas do meu olhar. E assim, imerso na alucinação mineral que se vai compondo, sorvo gota após gota toda a sua mina: o transbordar das carnes, que é todo o Sal da sua existência... sim, porque Lúcia não chora. Pelo menos, nunca o fez em minha presença. Lúcia apenas grunhe, e canta; é carnadura in verbo: luta e contrai, evade-se e relaxa, blasfema e goza.

Beleza, arte, significações... Nada disso transcorre assim que ela suspira, aliviada. Súbita, gira sobre si mesma. Transborda a paisagem de há pouco, inunda os lençóis, vira-se para me fitar. Eu e ela vamos recompondo as sobras do nosso ato vazio (que é deveras a imperfeição dos nossos desejos). Resta-nos o eriçar-se, em nós, de uma linha antiga querendo ser refeita. Restam nossos umbigos defrontados, observando-se, alongando-se em distância, cada vez maior... cada vez maior... E, quase ao nascer do dia, a madrugada teme por todos esses fins.

Ignoro os pontos exclamados do nosso silêncio. Reticente, levanto-me da cama. Fora, na sacada, meu corpo despossuído de utilidades para Lúcia. Assento-me sobre as grades ainda vibrantes pelo calor da noite tropical. Não venta. E, cá como lá, a situação é desconfortante, abafada. Mas Lúcia, mais perspicaz que eu, já se envereda pelo corredor a caminho da água fresca: uma ducha fria. Eu insisto em permanecer, porque cá como lá é o mesmo incomodo, é um mesmo e só lugar... O sol desponta.

30/11/2010

Partes ... de conto passível de fim... quem sabe em breve...

No Acácia, Antero me aguarda; e que Antero estaria a me esperar, aquele do primeiro ou o do último olhar? Sim, pois se havia algo que sabia sobre ele era que nunca fora o mesmo, desde quando começamos. Quando começamos, ele se mostrou vário em sua presença, e isso me agradou profundamente. Era calmo na sua pressa pelo meu corpo, e convulso nos diálogos para tentar me convencer de que estava sossegado, ao esperar um gesto do meu carinho. Desse jeito, fui admirando seus esforços, porque, através deles, a ele eu me entregaria, mais tarde, sem esforço algum.

Até encontrá-lo, sabia que esse meu estar, esse meu permanecer sendo a mesma pessoa, sempre me fora fácil demais. Porém, ao conhecê-lo, me transformei em sua pupila, e fui me animando em ser outra, além de mim. Não imitar eu mesma acendia Antero. Como naquelas noites, em que ele me aparecia, sentava-se calado e, me ignorando, dormia febril. Ao acordar, como quem encontrasse um sorriso escondido num antigo quadro, Antero me surpreendia com outros olhos e eu a ele, já outra forma feminina. Poucas mulheres apreciariam ou entenderiam: Antero não me via, via outra. Por isso, a cada encontro me sentia nova, na tentativa de renascer de poses ancestrais, que se escondidas em seu olhar, tingiam-se em meus quadris, em meus ombros e cabelos, e até mesmo em meu sangue.

Ele me desdenhava, e isso era o que fazia de melhor. Seus olhos relando, não a mim, mas meu contorno, proporcionavam-me calafrios e prazeres que ninguém nunca soube ou tentou fazer. Outros, tão diferentes, olhavam-me sempre igual. Antero não. Antero me imaginava severamente. E cada detalhe que ele desenhava, com suas íris, afirmava que eu não poderia ser outra, senão aquela que ele avistava.

Se me aborrecia em ser uma ou outra, sumia uns dias. Ao retornar, cansada de ser eu mesma, Antero mirava meu corpo, intrigado, e ameaçava-me com um tapa que eu, fingindo surpresa, esquivava. Logo, tornava a olhá-lo e ele já me havia retirado a velha máscara. Eu, então, rebentava em novos aromas, novas peles, novos cabelos: nos olhos de Antero, renascidos por detrás da embaçada retina, havia convencimento e fruição para nós dois, e ainda insatisfeitos nos atirávamos um na moldura refeita do outro. E pintasse o quê pintasse, éramos telas nuas, nos amassando na idéia de tintas impuras, na viscosa matéria da qual fluíamos. Eu manchava-lhe as mãos e a boca, com minha aquarela fresca e selvagem. De joelhos, bestificado, ele me sorria, cerrando a mandíbula, dilacerando os próprios lábios, para me mostrar todos os dentes extraídos de qualquer juízo: éramos uma única pintura de natureza bárbara.

Mas eu e Antero não finalizávamos nada. Não permanecíamos no caos que nós mesmos nos propuséssemos e, então, nos evadíamos de toda arte, retornávamos aos rascunhos, examinando as formas ignóbeis da nossa realidade. Desprezávamos as paletas: éramos dois estranhos, representando cores batidas e irreconhecíveis. Eu levantava da cama e tentava me emoldurar dentro do espelho, que perplexo não sabia o que refletir: eu já não era nada. A cama renegava Antero, e ele, ao lado da mesa, sentava-se naquele móvel, que já sabemos o nome décor. O copo entre seus dedos pressentia e tilintava, abrindo a grande boca, para sua dose diária de fantasia. Em seguida, havia o gole seco, a bocarra vazia, e Antero calava-se; ambos abismados, sem sentido algum, apenas esperávamos o repetido inclinar-se da garrafa. E só nisso Antero era sempre o mesmo, e não igual aos outros, porque já não me olhava.

02/11/2010

Calmatododia

ai... que sinto tanta calma, toda amarra que amei partiu; há outra força a unir meu passo ao outro; antes afoito, antes corvo ante a mortalha do chão que meus olhos escarnavam; cabeça baixa, topava com horizontes, que chegados, me derrubavam; olhar o chão nunca sonegou minhas arestas; fossilizou a luz das calçadas e, daí, para as cores foi se criando um arco-sem-íris: ossatura cinza em degrade cru; não mais caminho seguro, caminho calmas: a calma triz de um esbarro, a calma tratada maturando a tristeza do olhar, a calma ofício do corpo ao meio-dia, calcinando encarnados ponteiros; caminho calmas e levam meu destino habitual aos acasos da rima; partilho calmas: andanças sem quê, nem pra quê; e de calmas, um velho numa esquina me sorri: há tanto bem nesses lábios sábios; um menino me sorri e a pele nova e o corpo frágil, tão puro, que nem de palavra há na boca ou na ossatura; uma moça me mostra os dentes, e ali há sorriso nenhum; eu sorrio para o espelho da vitrine e ninguém retribui essa minha ferida; acalmo caixas registradoras, com bolsos avessos a qualquer pecúnia ou picuinha; acalmo passantes, que vão me contando os segundos entre uma tragada e outra de cigarro; acalmo médicos: meu câncer é signo de grandes braços e abraços; acalmo o trânsito: vou lerdo acendendo cronópios esverdeados; calma do branco cachorro atravessando a faixa da rua, calma dos milhos lançados ao forno das praças estourando pombais; calma do negro gato surrupiando todo sol; calma em bemol que segura a estridência de um assovio; creio no calmo sincopar dos suspiros: o meu e o teu; vivo a calma episódica dos beijos técnicos e do amor novelesco de segunda a sábado; vivo a calma dos mortos, carregados pelas ruas, cortejados por mãos amigas e lembranças cômicas; vivo a calma atômica das trocas energéticas neutro-eletrônicas; vejo calmamente a calamidade das favelas, a falência dos subúrbios e a soberba dos centros dessas capitais; e me acalmam os recreios nas escolas, o lento barulho da bola invadindo a meta, a fórmula de báscara colada embaixo do estojo e o engodo de uma dor de cabeça antes da aula; não me acalmam os paletós bem cerzidos, o relógio ponto batido as sete da manhã ou o desconto da mercadoria sem utilidade fantástica; calma para essa asma de botequins cheios de felicidade, embriagues e fumaça demais; calma para o desespero da verba acabando na metade do mês; acalmem os amantes de última hora, os empregados nas obras e as notícias clichês; e principalmente acalmem o medo, os sortilégios do tempo e a pressa no coração; eu... acalmo essa rima: madrugada no copo, pedras de gelo em revolução...

15/07/2010

GLUTÃO DA VONTADE

Como comer do tempo
sem desossar relógios,
sem espalitar com ponteiros?

Essa ânsia jamais
se sacia em palavras:
deseja números
e a volta completa que tragam.

Redonda, tal boca, me consome,
mas evitar todo nervo,
mas evitar todo tic ou tac na língua
inda é querer parar qualquer fome?

Tempos famintos:
passado ou malpassado


sei que estou no ponto
a um ponto de engolir todo o mundo,
sem mais palavras,

como essas.

06/06/2010

UMA CAMPAINHA TOCA

Uma campainha toca. A luz da sala que, até então se via acesa desde a rua, por hora se apaga. Do lado de fora, a espera pelo reencontro. Tamanha energia depositada neste primeiro toque na campainha subvertera a física do som lá dentro e apagara aquela luz. Brilho que flutuava, tocando a mesa, o jogo de sofás em madeira, com almofadas verdes, o aparelho de TV, tudo, até onde uma sombra ou outra impediam sua passagem.

Talvez, apertasse aquele mísero botão com uma leve sensação de engano. Engano de hora ou de endereço; não equívoco de vontade. Tudo estava: “Rua torta. Lua morta. Tua porta.”. Não se ouvia nenhuma serenata, apenas o sintético “ding-dong”, e Cassiano Ricardo a dragar o fundo daquele rio de pedras e passos. Embora intuísse a presença de alguém lá e se certificasse do endereço e do número do apartamento, eram desconhecidas as forças que empurravam e cerravam a chave de luz naquela sala.

Cassiano permanecia cá. Envolto em um de seus braços, um vinho modesto. No anteparo do ombro, levemente suspensa, uma bolsa com poemas, um livro de Cortázar de 1962, e um filme. Impossível medir, entretanto, o peso repetido da campainha cantando pela terceira vez, feito Hai-kai.

Assim como cá fora, lá dentro pressionava-se uma pequena “chave”, com discrepâncias terríveis de tempo. Esta se asseverou por três vezes, cadenciada e voluntariosa, e já sem voz parou. Aquela, rápida, evadiu-se em penumbra, como num “clic”. E se “mistério engendra mistério”, quantos pensamentos ocorriam entre um cá e um lá? Quantos cigarros tragaram todo o orvalho naquelas dezenas de minutos? Quantas imagens intactas ou trincadas se perderam naqueles instantes de frio e desassossego? Que estranhas criaturas resplandeciam naqueles momentos de claridade? Que náufrago submergia ao escuro agarrado a chave de luz? Não há o que saber.

Mas, Cassiano sabia de algo: que acasos são, assim, de esquina. E postou-se como um pequeno farol de espera; ânsia e maré. E bebeu toda a umidade da noite e se agasalhou no verde limo de quem aguarda. Entre os enigmáticos espaços, entrementes, havia luzes, mãos e toques; não havia companhia. Apenas a eletricidade ligava cá e lá, a voz metálica entre um “clic” e um “dong”. Então, talvez, a Física se mantivera, mesmo, alterada. Pois entre um intervalo e outro da curta canção, aquela luz se acendeu e se apagou novamente, como resposta, como aviso do inexplicável.

Já afônicos, ambos, Cassiano e a campainha entoaram sua última nota, a quarta. E o compasso enigmático dos três se interrompeu. Cá, lá e a música se acomodaram. Ele, imerso em seus labirintos, deu meia volta. Poucos passos depois a angústia já se derramava em pegadas. Voltava para casa, duvidoso de si e dela: ela não estava lá; ela não desejava abrir a porta?

Porém um miado se escutou vindo daquela sala. Cassiano caminhava surdamente. Era Theodoro, o gato dela, entre rodopios, pulos e pequenas mordidas, em um móbile ao lado da porta, brincava com um coração muito próximo a chave de luz, muito longe da campainha.

05/06/2010

SUBSTÂNCIA COMUM

A substância do amor
é o medo

medo de perder alguém
em comum

medo de partir esforços
em comum

medo de partir o comum do medo
e partir

A substância do medo
é partir-se só
sem comum acordo

O acordo do amor
é dividir o medo
de partir-se só

A partida do acordo
não é amor
é medo de amar
num só

Todo amor
é força partida
partilhada

e toda partida atrasada
é medo
de voltar o medo
de partir e só

31/05/2010

CHUVA GRENÁ

A chuva volta. E é tanto frio aqui e ali fora que convém proteger todo limiar do corpo. Aonde se descobre nossos fins, sempre assim: congelando-se, cortando-se, queimando-se ou tocando. Convém, mesmo, assegurar-se desse limite ironicamente indiscreto, onde tudo acaba por começar ou esquenta para depois esfriar.

Nessa estética trincante, na qual beleza e o estranhamento parecem se separar por um antes e um depois do momento da quebradura, do estilhaçamento, como não sofrer dessas duras frestas, essas caixas acústicas que nos acompanham?!

Contudo, ao inverno desses dias pouco importa como os ouvidos aparecem. Se o corpo assumiu uma primeira abertura, o gélido ar trata de esculpir inumeráveis frinchas que aos poucos vão lascando nossa pele francamente fraca.

E à revelia disso tudo, há de se ter ainda maior cuidado, além da baixa temperatura, com as palavras ardentes. Aromas de vinhos rememorando o sol das colheitas. Um antigo calor dos passos forçando todo o início de uma embriaguez tamanha a se soltar dos gomos. Essa quentura que nos escava e vai semeando pensamentos e colhendo pequenas taquicardias de nosso peito. Essa inesperada troca mais, que de temperatura, de temperamento. Assumindo lugar, não só na cabeça, mas em toda garganta que pronuncia adivinhações e enigmas há muito perdidos no labirinto da nossa história.

Há de se aproveitar a estação, e ter cuidado, demasiado, com todo calor inventado. Mas como orelha gelada e vinho quente são bons!?

24/05/2010

OS FILHOS DA OUTRA: EP!




Nosso bloco vai passar!!!

Os Filhos da Outra, EP para divulgação:

http://www.myspace.com/filhosdaoutra



*músicas e fotos do grupo (ou pior, banda; ou melhor, bando) de música.



"Sou filho da outra/ profano a realidade/ minha arte imita a vida/ e minha vida imita as bocas da cidade"

15/04/2010

PERDAS

Quero gritar um silêncio,
mas tudo que escrevo
é um tic-tac infinito
que poderia ser trocado
por um minuto vivo
e , assim,
ver morrer a dor do tempo

você e eu
tu e teu
tic e tac

vamos deixar os corpos
os corpos de cada número
e ver toda vida se dar
na finitude alheia,
regressiva dos suspiros,
que, ainda, há tempo perdido

19/02/2010

PRA TE LEMBRAR



Palavras e mais palavras,
tanta gramática e retórica sobre o nosso amor...

Quiçá entendêssemos
o silêncio entre os lábios
que nossa voz faminta
premeditava em mordidas

Pudera...
nosso sentido tolo,
não buscou o zelo do erro,
apenas calou o que reverberou
do juízo que nos escutava.

Nossa semântica, tão pura,
perdeu-se em complexa sintaxe,
deflagrada pela nossa análise dos sentimentos.

Foi preciso uma revolução dos costumes,
improvisações na pragmática amorosa
e, então, recomeçamos...

Num pronome jogado ou esquecido a esmo
nos amamos nas elisões do acaso.

Na preposição das almas,
na conjunção das palmas das mãos,
somamos a primeira pessoa
em qualquer uma das conjugações.

Na mesura dos objetivos, nossas vistas,
por vezes ambíguas,
encontraram a coesão das vontades.

E mesmo nos tempos insolúveis
nos amamos
no mais-que-mais-que-perfeito dos corpos,
sem espaço para as imperfeições dos olhares;

mais que tudo,
foi preciso uma falha nas falas
para reencontrarmos nos abraços,
tantos laços sem explicação:

e qualquer frase mal-feita
reata a idéia dos companheiros
que fomos e seremos

E o coração batendo
como um verbo pequenino,
ressoa bem quietinho
entre as vozes das nossas emoções!

Talvez uma alquimia vocabular
expanda a expressão prosaica
de um simples período de te amar:
Sempre amei-amo-amarei!

16/02/2010

A ORDEM DAS COISAS


Ele sabe como fazê-lo: o ato. Não é mera lembrança uma (in)certa voz paterna ou materna lhe indicando os passos de como faze-lo: o ato.

É conhecimento adquirido por repetições, repetições, repetições...

O ato em si vacila entre ser positivo ou negativo, enquanto a memória se equilibra sobre o corpo. Em cada músculo o estiramento da força e uma dor que a gente não sente, mas sabe que tem, e cada articulação às voltas com o movimento próprio de idas e vindas por um caminho que já se faz às cegas: são pequenas coreografias internas por detrás do pano da pele.

Os membros necessários para a execução do ato autômato na vontade inequívoca de conter entre as mãos o objeto, já sabedor de seu peso, tamanho, consistência: são cenas absurdas, para olhos insistentes em rever um espetáculo dèjá-vu.

A clareza do gesto e a observação frenética das íris, das pupilas e dos cristalinos, na ingenuidade de querer acompanhar o substantivado ato em ação. A curiosidade das narinas amanhecendo para a coisa dissipada: sem cheiro algum.

Ele sabe como fazê-lo: o ato surdo que trinca com a força desmesurada, os cacos da substância temporal, que estala na coragem de subverter a ordem apreendida:

- Filho, não te falei para molhar a forminha antes de tirar o gelo!?

08/02/2010

ESPAÇO



(Ao grande mestre, o Silêncio
devo meu cá, meu lá)

Qualquer canto, cá ou lá,
inaugurou em mim a distância
e revogou a passada
para o futuro das coisas:

antes das coisas a palavra,
antes das palavras o som,
antes dos sons somente

...

Não havia corpo antes do silêncio,
na madrugada da matéria
lá estava ele:

construindo meus braços,
arquejando minha boca,
lapidando entre veias e artérias
um músculo delirado,
vazio de uma costela

...

Havia palavra para criar
o corpo, palavra que jamais coube
na própria mesura:

era de dissabor
o seu trabalho nulo,
nomear a coisa que não pára
ora nasce, ora morre;
mesmo além ou aquém das palavras

...

Existia um espaço
atravessado na boca,
entre dentes e carnes:

a palavra corpo
balbuciada em surpresa;
nascendo dos lábios
intocada de posse
e liberta de tudo, distante

não sei o que era:
não era silêncio...

Lamúrias:

Lamúrias:
Eu represento todas as pantomimas que apreendi vivendo. A vida me mimetiza como ela quer, mas aí tanto me valhe ser objeto ou construtor de sentido (representa-dor). Sou a palavra que tu leres. E isso já é muito para mim.