
Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.
Deixa-te de histórias
Some-te daqui!
(A um passarinho - Vinícus de Moares)
Há muito tempo ela não sorria. Sei disso pela sua foto na primeira vez que a vi: ela não sorria há muito.
Trocamos cartas. Desde a invenção da escrita, assim fazíamos, assim fazemos. Trocamos muitas palavras. Mas palavras o que são?! E, desde a vez que a vi, seu rosto permanecia ali, em mim, como um espelho que, gasto de projetar imagens, cansa e se parte em pedaços impossíveis, para que ninguém mais se admire nele.
Tinha dias que, de humor elevado, mandava-me lírios fotografados e depois de horas, em exaustão, olhando-os, percebia ela por detrás de cada uma daquelas flores. E, todas elas, apesar de lindas, nunca sorriam e, assim, ela nunca mesmo sorriu para mim.
Por isso, sempre revia sua imagem tentando roubar-lhe um sorriso. Mas ela cobria qualquer excesso de luz sobre o que sobrava de seu amor, de sua dor. E, desse modo, ia ficando mais e mais lilás.
Por isso, depois, entendi seu medo da luz; que era mais que medo: cogitei que o sol a invejava, causa e motivo pelos quais ele a maltratava a cada passo além da sombra segura da sua casa, do seu quarto.
Por isso, ela permanecia lá, e quando se aventurava à janela sabia que já era tarde demais para a tarde. Sabida a noite, ela se debruçava levemente para fora.
Sempre que a lia eu sabia: ela tinha muito a me contar. E mais ainda a me ensinar. Pena a descoberta tardia de que o que verdadeiramente me falava permanecia oculto entre uma palavra e outra, entre uma linha e a seguinte. Era nesse intervalo de silêncio, aonde o nada fingia e figurava, exatamente ali, ela soletrava seu mundo. Descobri tarde, porém, a tempo, um além de suas palavras.
Eu a aguardava, todas as semanas. Ás vezes, tonto de náusea pelo atraso do carteiro (se ele fosse poeta saberia o mal que isso traz). Mas, a cada carta nova que abria, sentia em (des)dobradas alegrias o que a espera tinha me selado em angústia e tristeza.
E soube, então: foi ela quem me fez crer numa folha amarelada caída de uma mangueira, esquecida sobre o asfalto. - A folha ainda está lá! Ela dizia. Eu que nem sequer sabia de sua existência, cri! Hoje sei. Foi ela, também, quem me mostrou um coelho branco que se esconde na lua. Ela, a menina dos olhos imensos como a lua, mostrou-me o fel do paraíso; e eu a fiz acreditar que “um anjo torto, desses que vivem na sombra”, apesar e por ter caído, também já teve asas.
Foram-se as estações... Ela me mandou a primavera no bico dum sabiá. E eu plantei uma camisa florida, que colho no dia que nos encontrarmos. Mas ela jamais sorria. Havia noites que ela tinha pesadelos; eu sonhava com ela. Na outra semana me escrevia contando que me ouvira em seu penar pelas terras de Morfeu. Mas ela jamais sorria.
Numa alvorada qualquer, encontrei uma carta, na beirada da minha janela. Era o sabiá que a trazia! Abri com ternura o envelope e o sabiá paciente, em espera, me fitava. Era uma foto dela. Ela olhava para a lente com candura, contudo não sorria. Na imagem, sua boca batalhava a fim de decotar qualquer promissor sorriso. Até que debaixo das sobrancelhas, bem ali, vacilaram um pouco seus olhos, e pronto: fez-se uma curvatura distinta. Você sorriu.
Eu gritei: - Ela sorri!? E o sabiá saiu voando contar a ela a novidade!
Para B. M.