palimpsesto

palimpsesto
Lamúrias

03/07/2008

da sala do solar



de perto,
as curvas lustrosas da parede ambígua
arrombam vertigens desde dentro,
povoando novamente velhos vitrais;

a sonoridade do silêncio encanado
(hábitos de não assoviar no solar)
traz do quintal encravado
apenas uma pérola sem cor;

é construção harmoniosa,
no equilíbrio circular da última sala,
mas se o centro
é a contraluz que suspende janelas,
o suspense vem
de uma centelha inesperada
adivinhada desde fora;

desse cenário sem arquiteto,
um rastro de visgo
espreita a ação.

02/07/2008

Póeris


dá-lhe,
que o que sinto é pouco
da malcheirosa cidade,
só dentes,
só estômago,
a feder toda porcaria
que não sintetiza;

vá lá,
veja
o que meu hálito
não cogita do podre,
o que meu humor não interpreta
do que o dia, já terminando,
escrementa pela calçada;

veja lá
o que lhe falo;
não é de todo,
é o que recortei
das sobras da imundice
e que colo no quarto, aqui;
é o que jogo pela janela,
pelo ralo do dia;
o que cago na porta ao lado:
- Com desejos de boas-vindas,
seu vizinho do 404.

01/07/2008

O Banquete


- Começarei minha fala com uma citação poética: “Um homem que engole a própria cabeça some naquilo que não digere.”, assim falou...
- Hora, esse homem é um verme! – um senhor grita.
- Amigo, o homem não é um verme - contemporiza o palestrante - um verme macera o podre, não incrementa tempero no que excrementa, não lhe ocorre questionar-se sobre a nova dieta vegetariana.
- Mas um homem que engole a própria cabeça, tal como um verme que se consome, acaso não credita no sabor da morte seu último desejo de consumação? - retruca o senhor da platéia.
- Alma famigerada, por favor, mantenhamos o ponto. Pensemos assim: um homem tem planos, correto? Planos do homem para o homem?! Vontades que lhe ocorrem em meio às desditas ordinárias. Vontade de lhe inscrever a própria história. Assim, o homem escreve, reescreve, descreve e há quem jure que imita. E a caneta, ser inanimado, apenas desempenha a volúpia do dono, mas a caneta é cega, só entende de desprezo de tintas. O homem, ao contrário, de acordo com sua elevada natureza, tem planos para a sua caneta e um fim para esse empenho. O homem planeja e...
- Mas a caneta, coitada, contendo um tanto do homem, já não lhe adivinha ou planeja o trabalho futuro? - incomoda-se o senhor com tamanha objetividade.
- Amigo a questão é outra, concentremo-nos: verme e caneta, é o que explicava, estão desapropriados dos saberes sobre sua finitude. À caneta não importa saber do seu potencial de oxidação ou a exatidão do tempo de duração da sua carga. Aliás, nada espera. É manipulada. Nela não reconhecemos vida, logo...
- Acaso no engenho do homem presente na caneta não lhe participa a vida? Acaso a imperfeição de sua reprodutibilidade não lhe confere existência distinta de todas as outras canetas do mesmo modelo ou lote? Acaso seu desgaste, devido ao uso, aparente na sua anatomia, não constitui um inventário do tempo vertendo de suas formas e cores? - exasperado, levanta-se e se coloca em frente ao palestrante.
E percebendo que a derrota de seu discurso incorreria no término da discussão, o palestrante, assume:
- É verdade, meu caro, nós malfadados homens somos todos vermes... - e devora a cabeça de seu argüidor...

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