palimpsesto

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Lamúrias

27/09/2008

Vida e Morte Bergamota (por Uiliam Ferreira Boff)

roubar-te um aroma,
quando é antes idéia não transpirada, como?

amaldiçoar tua dádiva,
inda inteiriça se partida;

findar a promessa desta casca:
a vontade semeia, aí, a surpresa
– camadas e camadas de pele fresca –
pedaço de prazer velado
(em tua forma, sim, o primeiro pecado)

e mais que muitas é meia:
irônica agridoce (vale mais que inteira)
decerto descobre
gomos imaturos em línguas alheias;

as bocas tantas, poucas,
não adivinham de teu todo o fragmento;

casca-suco dilacerada,
adianta a herança fétida da tua morte.

24/09/2008

Desembarque (por Uiliam Ferreira Boff)

Vez ou outra desembarco em mim. Da vez última, atônitos os fantasmas dispersaram-se pelos águas, como barcas, e tudo pareceu estar longe, longe de novo. Estendi-me muito, numa viagem antiga de encontrar coisas passadas.

Mas não esbarrei em coisa alguma, nem mesmo naquelas que cuidei indiferente, que dei de beber aos mares e comer nas conchas essas migalhas que o acaso lhes provesse. Criei-as assim, de velas baixadas, aos cuidados da correnteza.

Tantas e de tantas, que as vi flutuantes, amedrontando-me, navegando-me furiosas, em minhas próprias vertigens... talvez fossem monstros imergindo de coisa nenhuma... e, eram apenas coisas boiando.

E o maior milagre foi não vê-las mais - que estratagema engenhoso esse, de ancorar as coisas em portos fantasmas, que nem a memória guarda - e quem não faria tamanho truísmo nesse abismo todo?!

Mas a cada instante, ouvia, cada vez mais perto, assombros vindos das vagas; de quem? E me lançava em inesperadas divagações... quantos fizeram, aqui, sua morada, estacando vidas e foram embora, assim, sem mais”.

Eis que seguia, encontrei, mais adentro, num turbilhão de coisas, quem chegava do mar: era eu, desembarcando...

17/09/2008

T... e... ( ).. p... o



“Eu ando nas ruas com o sol descolado da tua pessoa” (Tom e Chico)

É claro esse passo. Demarca um pedaço próprio (instante ingênuo, instante abatido, por uma reforma urbana apressada, cuja cobrança precede quaisquer regalias de posse)... mas ainda é claro; e o que haveria para encobrir, além da uma réstia de sombra?!

Um após o outro, cedem numa medida aleatória, onde se deposita, aritmética, toda essa parte do corpo que apenas o chão sempre reconhece. E dada a passada, é outra luta para não sentir mais a mesma saudade ( nova aflição de saber que, se uma hora pára, o corpo cessa e o mundo esbarra desgovernado).

Força ante força, somando e diminuindo (todos os antes, todos os depois da carne) o que precisa tencionar sobre o solo e aquilo que o solo rouba incólume - sinergia misteriosa - o corpo age sem distinção de lados, em revoluções. Quando já tormenta, pernas de torvelinho, reinventa-se roda e vai, vai, vai até... até que aliviado de toda física, admira as coisas que seguem, ali, aqui, à sua volta: intactas, distintas do resto que é rua, fuligem, sorriso, vertigem luminosa.

Contudo, ainda crê no átimo quente de luz, que vicia muito mais as coisas da idéia, que a idéia das coisas (ademais, o que não é brilho, são esperas ruminosas consumindo os calçados, sombras enraizadas espreitando no calçamento...).

E observa essas cenas - os aguardos de tudo - como se fossem honrosos presentes para o olhar, adivinhando o que escolherá, afinal, dessa rua...

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