palimpsesto

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Lamúrias

30/11/2008

Sete Suicidas

O primeiro canto

não serei breve; paciência com o corredor que enxergas...
ah! paredes tolas; nossas cabeças estão degoladas, lá fora.
esse teto é um docel armado por cruzes e tridentes,
e o chão... tudo se dissolve em meio a acidez das passadas...

não há motivos para exasperos, não quero saber do nada mais,
ainda me sobram a cunha das mãos para moldar o que penso,
me sobram os dedos, ainda posso tragá-los e acariciar meus temores
ainda, ainda, ainda há vontades de lembrar do lá fora...

vamos todos, todos degolados, engatinhar no pasto,
enfrentar as pestes psíquicas do próximo vale;
valerá a pena reencontrar o que não sei desse descampado,
encontraremos um espelho deitado refrescando as perdas...

que importa saber dos dez lírios que plantei e você não colheu
meu amor será sempre essa rosa medonha e parca
que estoura quando ninguém mais tem mãos, braços e olhos
não me planto mais, não me rego, nunca me importei com o tempo....

(mentira!

Hoje, as dez da tarde, vou assaltar todas as padarias,
roubar de uma só vez toda a farinha do mundo
e convidar apenas os padeiros para um banquete espetacular,
quebrarei todas as mandíbulas dos dráculas da fila do pão...)

ah! noite perturbada; vou esquecer nosso encontro,
amputarei minhas pernas e doarei todos os meus olhos,
transplantarei para os outros cada ponta de vista que te tenho
e eles verão apenas dias e mais dias e mais dias, eu nunca mais dormirei...

quando olhei para esses telhados, encolhia os vãos desse corpo
e já estarei lá, neles, debruçado: toda a minha preguiça,
me esganiçando com os gatos, uma canção dessas tolas
meditando a queda da sua supremacia egípcia...

A Piedade (Poesia do Roberto Piva)

Eu urrava nos poliedros da Justiça meu momento
abatido na extrema paliçada
os professores falavam da vontade de dominar e da
luta pela vida
as senhoras católicas são piedosas
os comunistas são piedosos
os comerciantes são piedosos
só eu não sou piedoso
se eu fosse piedoso meu sexo seria dócil e só se ergueria
aos sábados à noite
eu seria um bom filho meus colegas me chamariam
cu-de-ferro e me fariam perguntas: por que navio
bóia? por que prego afunda?
eu deixaria proliferar uma úlcera e admiraria as
estátuas de fortes dentaduras
iria a bailes onde eu não poderia levar meus amigos
pederastas ou barbudos
eu me universalizaria no senso comum e eles diriam
que tenho todas as virtudes
eu não sou piedoso
eu nunca poderei ser piedoso
meus olhos retinem e tingem-se de verde
Os arranha-céus de carniça se decompõem nos
pavimentos
os adolescentes nas escolas bufam como cadelas
asfixiadas
arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através
dos meus sonhos

29/11/2008

Visões del Sur

Bueno!
Me compreendes homem?

Complicado teu causo, meu senhor:
campear verdades, nas ilusões do teu Sur;
cosa séria: senhor-menino-descampado

ouves, Senhor:
teu sul-realismo é um cego admirando a geada, que não há

larga este açude, esses peixes já voam sós, feito cavalos

quando voltares as rendas da tua prenda
escuta o silêncio trazido dos partos da tua eternidade imaginária

e viste aquelas cercas? ... empunha a guitarra e reverbera o vento dos campos,
tropeia com teus filhos para longe da liberdade da varanda

e nos dias daqui, desta cidade-bairrista,
deposita confiança nessa caneca de calçada:
“ajude um pobre cego, cultivador de auroras, meu senhor”

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Uiliam Ferreira Boff
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