16/02/2010

A ORDEM DAS COISAS


Ele sabe como fazê-lo: o ato. Não é mera lembrança uma (in)certa voz paterna ou materna lhe indicando os passos de como faze-lo: o ato.

É conhecimento adquirido por repetições, repetições, repetições...

O ato em si vacila entre ser positivo ou negativo, enquanto a memória se equilibra sobre o corpo. Em cada músculo o estiramento da força e uma dor que a gente não sente, mas sabe que tem, e cada articulação às voltas com o movimento próprio de idas e vindas por um caminho que já se faz às cegas: são pequenas coreografias internas por detrás do pano da pele.

Os membros necessários para a execução do ato autômato na vontade inequívoca de conter entre as mãos o objeto, já sabedor de seu peso, tamanho, consistência: são cenas absurdas, para olhos insistentes em rever um espetáculo dèjá-vu.

A clareza do gesto e a observação frenética das íris, das pupilas e dos cristalinos, na ingenuidade de querer acompanhar o substantivado ato em ação. A curiosidade das narinas amanhecendo para a coisa dissipada: sem cheiro algum.

Ele sabe como fazê-lo: o ato surdo que trinca com a força desmesurada, os cacos da substância temporal, que estala na coragem de subverter a ordem apreendida:

- Filho, não te falei para molhar a forminha antes de tirar o gelo!?

4 papo(s):

D. disse...

Acho que esse guri fumou maconha (o guri da forminha, bem entendido).

dansesurlamerde disse...

eu queria escrever bem como tu.
beijo.

Graziela Motta disse...

saudade hein.

Priscila Milanez disse...

As dores que não se sentem e mas se tem são sempre as mais traiçoeiras.

Achei um cometário seu antigo no meu blog.Então, resolvi passar por aqui pra conferir se ainda resistia na escrita.

Lamúrias:

Lamúrias:
Eu represento todas as pantomimas que apreendi vivendo. A vida me mimetiza como ela quer, mas aí tanto me valhe ser objeto ou construtor de sentido (representa-dor). Sou a palavra que tu leres. E isso já é muito para mim.