A chuva volta. E é tanto frio aqui e ali fora que convém proteger todo limiar do corpo. Aonde se descobre nossos fins, sempre assim: congelando-se, cortando-se, queimando-se ou tocando. Convém, mesmo, assegurar-se desse limite ironicamente indiscreto, onde tudo acaba por começar ou esquenta para depois esfriar.
Nessa estética trincante, na qual beleza e o estranhamento parecem se separar por um antes e um depois do momento da quebradura, do estilhaçamento, como não sofrer dessas duras frestas, essas caixas acústicas que nos acompanham?!
Contudo, ao inverno desses dias pouco importa como os ouvidos aparecem. Se o corpo assumiu uma primeira abertura, o gélido ar trata de esculpir inumeráveis frinchas que aos poucos vão lascando nossa pele francamente fraca.
E à revelia disso tudo, há de se ter ainda maior cuidado, além da baixa temperatura, com as palavras ardentes. Aromas de vinhos rememorando o sol das colheitas. Um antigo calor dos passos forçando todo o início de uma embriaguez tamanha a se soltar dos gomos. Essa quentura que nos escava e vai semeando pensamentos e colhendo pequenas taquicardias de nosso peito. Essa inesperada troca mais, que de temperatura, de temperamento. Assumindo lugar, não só na cabeça, mas em toda garganta que pronuncia adivinhações e enigmas há muito perdidos no labirinto da nossa história.
Há de se aproveitar a estação, e ter cuidado, demasiado, com todo calor inventado. Mas como orelha gelada e vinho quente são bons!?
3 papo(s):
É que o vinho quente chega quase frio no longo caminho do copo ao "didentro" de cada um, cada orelha gelada traz em si um prenúncio de fogo...
mas há de se aproveitar, nada mais.
muito bonito.
beijo.
Tudo bem, desde que em cada copo de vinho brilhe a estrela Dalva.
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