06/06/2010

UMA CAMPAINHA TOCA

Uma campainha toca. A luz da sala que, até então se via acesa desde a rua, por hora se apaga. Do lado de fora, a espera pelo reencontro. Tamanha energia depositada neste primeiro toque na campainha subvertera a física do som lá dentro e apagara aquela luz. Brilho que flutuava, tocando a mesa, o jogo de sofás em madeira, com almofadas verdes, o aparelho de TV, tudo, até onde uma sombra ou outra impediam sua passagem.

Talvez, apertasse aquele mísero botão com uma leve sensação de engano. Engano de hora ou de endereço; não equívoco de vontade. Tudo estava: “Rua torta. Lua morta. Tua porta.”. Não se ouvia nenhuma serenata, apenas o sintético “ding-dong”, e Cassiano Ricardo a dragar o fundo daquele rio de pedras e passos. Embora intuísse a presença de alguém lá e se certificasse do endereço e do número do apartamento, eram desconhecidas as forças que empurravam e cerravam a chave de luz naquela sala.

Cassiano permanecia cá. Envolto em um de seus braços, um vinho modesto. No anteparo do ombro, levemente suspensa, uma bolsa com poemas, um livro de Cortázar de 1962, e um filme. Impossível medir, entretanto, o peso repetido da campainha cantando pela terceira vez, feito Hai-kai.

Assim como cá fora, lá dentro pressionava-se uma pequena “chave”, com discrepâncias terríveis de tempo. Esta se asseverou por três vezes, cadenciada e voluntariosa, e já sem voz parou. Aquela, rápida, evadiu-se em penumbra, como num “clic”. E se “mistério engendra mistério”, quantos pensamentos ocorriam entre um cá e um lá? Quantos cigarros tragaram todo o orvalho naquelas dezenas de minutos? Quantas imagens intactas ou trincadas se perderam naqueles instantes de frio e desassossego? Que estranhas criaturas resplandeciam naqueles momentos de claridade? Que náufrago submergia ao escuro agarrado a chave de luz? Não há o que saber.

Mas, Cassiano sabia de algo: que acasos são, assim, de esquina. E postou-se como um pequeno farol de espera; ânsia e maré. E bebeu toda a umidade da noite e se agasalhou no verde limo de quem aguarda. Entre os enigmáticos espaços, entrementes, havia luzes, mãos e toques; não havia companhia. Apenas a eletricidade ligava cá e lá, a voz metálica entre um “clic” e um “dong”. Então, talvez, a Física se mantivera, mesmo, alterada. Pois entre um intervalo e outro da curta canção, aquela luz se acendeu e se apagou novamente, como resposta, como aviso do inexplicável.

Já afônicos, ambos, Cassiano e a campainha entoaram sua última nota, a quarta. E o compasso enigmático dos três se interrompeu. Cá, lá e a música se acomodaram. Ele, imerso em seus labirintos, deu meia volta. Poucos passos depois a angústia já se derramava em pegadas. Voltava para casa, duvidoso de si e dela: ela não estava lá; ela não desejava abrir a porta?

Porém um miado se escutou vindo daquela sala. Cassiano caminhava surdamente. Era Theodoro, o gato dela, entre rodopios, pulos e pequenas mordidas, em um móbile ao lado da porta, brincava com um coração muito próximo a chave de luz, muito longe da campainha.

6 papo(s):

Samara L. disse...

Show de bola!

dansesurlamerde disse...

ai, ai, meu amigo...

Samara L. disse...

Trombei com isso e não podia deixar de te mandar:

vá para o tibet
monte em um camelo
leia a bíblia
pinte seus sapatos de azul
deixe a barba crescer
dê a volta ao mundo numa canoa de papel
assine the saturday evening post
mastigue apenas com o lado esquerdo da boca
case-se com um perneta e se barbeie com uma navalha
e entalhe seu nome no braço dela
escove os dentes com gasolina
durma o dia inteiro e suba em árvores a noite
seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja
mantenha sua cabeça dentro d'água e toque violino
faça uma dança do ventre diante de velas cor de rosa
mate seu cachorro
concorra à prefeitura
viva num barril
rompa sua cabeça com uma machadinha
plante tulipas sob a chuva

mas não escreva poesia

(Charles Bukowski)

Tenha belos dias, Menestrel.

Samara L. disse...

Ah, e fio, quando tu tiveres o tempo de dar uma fuçadinha lá no brogue, na coluna direita tem o marcador "ficcionando", que é o atalho para os posts que realmente interessam.
Beijo.

Demétrio Cherobini disse...

Das reflexões que fazemos

Já cansei de ser triste,
Já cansei de ser frágil.
Por quê minh’alma insiste
Nesse insípido plágio?

É plágio, sim senhor!
É não ser criativo!
Copio a alheia dor,
Não falo do que eu vivo.

Vou ser original
Assim eu me extravaso.
Vou falar do jornal
Que eu leio estando ao vaso.

Ali, nessa postura
De sábio ou pensador,
Pareço uma escultura
De Rodin, o escultor.

E o clima me convida
À reflexão profunda,
E, pensando na vida,
Esqueço minha... dor.

Ah, momento supremo
De paz e liberdade!
Penso, concluo e gemo:
Nenhuma dor me invade.

Fornicar é preciso disse...

Até que tu não é tão burro quanto parece.

Lamúrias:

Lamúrias:
Eu represento todas as pantomimas que apreendi vivendo. A vida me mimetiza como ela quer, mas aí tanto me valhe ser objeto ou construtor de sentido (representa-dor). Sou a palavra que tu leres. E isso já é muito para mim.