02/11/2010
Calmatododia
ai... que sinto tanta calma, toda amarra que amei partiu; há outra força a unir meu passo ao outro; antes afoito, antes corvo ante a mortalha do chão que meus olhos escarnavam; cabeça baixa, topava com horizontes, que chegados, me derrubavam; olhar o chão nunca sonegou minhas arestas; fossilizou a luz das calçadas e, daí, para as cores foi se criando um arco-sem-íris: ossatura cinza em degrade cru; não mais caminho seguro, caminho calmas: a calma triz de um esbarro, a calma tratada maturando a tristeza do olhar, a calma ofício do corpo ao meio-dia, calcinando encarnados ponteiros; caminho calmas e levam meu destino habitual aos acasos da rima; partilho calmas: andanças sem quê, nem pra quê; e de calmas, um velho numa esquina me sorri: há tanto bem nesses lábios sábios; um menino me sorri e a pele nova e o corpo frágil, tão puro, que nem de palavra há na boca ou na ossatura; uma moça me mostra os dentes, e ali há sorriso nenhum; eu sorrio para o espelho da vitrine e ninguém retribui essa minha ferida; acalmo caixas registradoras, com bolsos avessos a qualquer pecúnia ou picuinha; acalmo passantes, que vão me contando os segundos entre uma tragada e outra de cigarro; acalmo médicos: meu câncer é signo de grandes braços e abraços; acalmo o trânsito: vou lerdo acendendo cronópios esverdeados; calma do branco cachorro atravessando a faixa da rua, calma dos milhos lançados ao forno das praças estourando pombais; calma do negro gato surrupiando todo sol; calma em bemol que segura a estridência de um assovio; creio no calmo sincopar dos suspiros: o meu e o teu; vivo a calma episódica dos beijos técnicos e do amor novelesco de segunda a sábado; vivo a calma dos mortos, carregados pelas ruas, cortejados por mãos amigas e lembranças cômicas; vivo a calma atômica das trocas energéticas neutro-eletrônicas; vejo calmamente a calamidade das favelas, a falência dos subúrbios e a soberba dos centros dessas capitais; e me acalmam os recreios nas escolas, o lento barulho da bola invadindo a meta, a fórmula de báscara colada embaixo do estojo e o engodo de uma dor de cabeça antes da aula; não me acalmam os paletós bem cerzidos, o relógio ponto batido as sete da manhã ou o desconto da mercadoria sem utilidade fantástica; calma para essa asma de botequins cheios de felicidade, embriagues e fumaça demais; calma para o desespero da verba acabando na metade do mês; acalmem os amantes de última hora, os empregados nas obras e as notícias clichês; e principalmente acalmem o medo, os sortilégios do tempo e a pressa no coração; eu... acalmo essa rima: madrugada no copo, pedras de gelo em revolução...
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Lamúrias:
Eu represento todas as pantomimas que apreendi vivendo. A vida me mimetiza como ela quer, mas aí tanto me valhe ser objeto ou construtor de sentido (representa-dor). Sou a palavra que tu leres. E isso já é muito para mim.
3 papo(s):
bonito teu escrevinhado, como sempre.
por aqui falta calma, e eu tremo cada dia mais.
beijo.
Edição on-line do Livro das Apostas:
http://poesiaputana.blogspot.com/
Como gostei disso.
Sinto falta da sua poesia.
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