Longa deformação. Cinco anos dessa indisciplina humana: meu estudo, in locus, anti-darwinista.
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Razão e sobriedade; sentada sobre a poltrona, evitando meus olhos, sorvendo um chá gelado. É Lúcia, em perfeição.
Depois, já sobre cobertores, ela começa a tremer. São os efeitos daquela substância viciante, dissipada desde seu córtex cerebral. Pálpebras seladas contra a fronha, dedos das mãos cerrados, contrariando certa materialidade do travesseiro. Enquanto isso, eu observo o nascimento de seu dorso: simétrico, abrindo o sulco de um rio através de seu vale nu. Verte suor entre as montanhas das suas espáduas, e, brevemente, a correnteza se encoraja em meio às suas costelas, desce e se acumula profunda na base de seu quadril (possível lagoa, possível lordose).
Do longe ao perto, minha visão acompanha a precipitada enxurrada na sua superfície epidérmica, lavando uma mata de pequenos pelos aloirados; geografia do corpo que um dia amei. Então me engano. Não termina ali o caminho natural de suas águas. Dentre duas pedras gêmeas unidas, arredondadas e róseas, ressurge o rio, roçando as pestanas do meu olhar. E assim, imerso na alucinação mineral que se vai compondo, sorvo gota após gota toda a sua mina: o transbordar das carnes, que é todo o Sal da sua existência... sim, porque Lúcia não chora. Pelo menos, nunca o fez em minha presença. Lúcia apenas grunhe, e canta; é carnadura in verbo: luta e contrai, evade-se e relaxa, blasfema e goza.
Beleza, arte, significações... Nada disso transcorre assim que ela suspira, aliviada. Súbita, gira sobre si mesma. Transborda a paisagem de há pouco, inunda os lençóis, vira-se para me fitar. Eu e ela vamos recompondo as sobras do nosso ato vazio (que é deveras a imperfeição dos nossos desejos). Resta-nos o eriçar-se, em nós, de uma linha antiga querendo ser refeita. Restam nossos umbigos defrontados, observando-se, alongando-se em distância, cada vez maior... cada vez maior... E, quase ao nascer do dia, a madrugada teme por todos esses fins.
Ignoro os pontos exclamados do nosso silêncio. Reticente, levanto-me da cama. Fora, na sacada, meu corpo despossuído de utilidades para Lúcia. Assento-me sobre as grades ainda vibrantes pelo calor da noite tropical. Não venta. E, cá como lá, a situação é desconfortante, abafada. Mas Lúcia, mais perspicaz que eu, já se envereda pelo corredor a caminho da água fresca: uma ducha fria. Eu insisto em permanecer, porque cá como lá é o mesmo incomodo, é um mesmo e só lugar... O sol desponta.
4 papo(s):
Sumido, sim. Mas escrevendo divinamente ainda. Quase inveja. Beijo.
O cara que escreve coisas assim deve ser um Berlusconi na cama...
Ou um broxa! Heheheheheh...
O Blog Ensaios e Manifestos reúne uma coletânea de textos de tema livre , onde qualquer um pode participar , com o objetivo de formar um grande banco de idéias . Um pouco de Filosofia ,Literatura , História , Sociologia ,etc . Sou o editor do blog e gostaria de convidar o autor a participar , pois apreciei o teor dos textos
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